1485-1492

 

- Período mais provável para o nascimento de Álvar Núñez Cabeza de Vaca

 

1503

 

- O jovem Cabeza de Vaca é listado entre os caballeros de Jerez e recebe apoio do duque, neste ano, com uma soma de 15.000 ducados, como atestam livros de balanço no Arquivo Ducal de Medina Sidonia.

 

1503-1527

 

- Presta serviço a quatro duques de Medina Sidonia[1] [terceiro, quarto, quinto e sexto][2]

 

1506

 

Abril, 16 – Morre o avô materno de Cabeza de Vaca, Pedro de Vera Mendoza. O documento que divide as suas posses identifica Dona Tereza Cabeza de Vaca como guartadora e tutora de Álvar Núñez.

 

Abril, 28 – Cabeza de Vaca requer um curador ad litem [guardador temporário] para cobrar pessoas que deviam dinheiro a seu falecido pai (como era menor de 25 anos, não podia responder juridicamente por si mesmo). Indica para isso Martín Gil, escudeiro e morador de Jerez de la Frontera. A mãe de Álvar Núñez é, então, sua guardadora na cidade natal e Martín Gil, seu curador ad litem em Sevilha.

 

1509

 

- Morre Dona Tereza Cabeza de Vaca, mãe de Álvar Núñez.

 

Julho, 5 – Álvar Núñez e seu irmão Hernando de Vera comparecem diante do alcaide-mór de Jerez de la Frontera e requerem um guardador [seu tio, Pedro de Vera] para substituir sua mãe, recentemente falecida.

 

Agosto, 14 – Pedro de Vera é nomeado tutor dos irmãos mais novos de Cabeza de Vaca, Juan e Martín.

 

1511

 

- Parte da casa de sua tia Beatriz [Cabeza de Vaca ou Figueroa], que era como sua “segunda mãe”, e vai para campos de batalha, na Itália. Nesse período, se ausenta da Casa Ducal de Medina Sidonia.

 

- Agosto - Cabeza de Vaca navega com Alonso de Carvajal a Nápoles, que tinha sido recentemente reconquistada por Fernando de Aragão em 1504 e era governada desde 1509 pelo vice-rei Ramón de Cardonna, sob a jurisdição do Conselho de Aragão. O objetivo era ajudar as forças do Papa Julius II contra a agressão dos franceses, comandados por Gaston de Foix, o duque de Nemours. O Papa lutou contra os franceses pela posse de Bolonha. Os fatos sugerem que a expedição era formada em sua maioria por soldados que estavam planejando acompanhar o rei Fernando de Aragão em uma expedição de conquista ao norte da África, e este pode ter sido o lugar para onde Álvar Núñez tinha intenções de ir, em princípio, quando a expedição foi redirecionada para a Itália.

 

1512

 

Fevereiro, 4 – A batalha contra os franceses produz retração por parte das forças papais.

 

Abril, 11 – Participa da batalha de Ravena, na qual os franceses derrotam os espanhóis. Depois disso, aparece no cerco das terras e fortalezas do duque de Ferrara. Como prêmio, é nomeado alferes da cidade de Gaeta, próximo a Nápoles.

 

1513

 

- Cabeza de Vaca retorna à Casa Ducal de Medina Sidonia e ali testemunha uma novela em torno da sucessão no ducado.

 

Março, 20 – Após a morte de Enrique de Guzmán, herdeiro do ducado de Medina Sidonia, Pedro Girón – cunhado de Enrique – tenta tomar a casa de Medina à força, com o nome de Pietro Martire d’Anghiera. O próximo herdeiro legítimo, Alonso Pérez, ainda não havia chegado à maioridade, tinha problemas mentais e se tornara um fardo para sua mãe, Leonor de Guzmán y Zúñiga. O processo relativo à anulação de seu casamento colocaria Cabeza de Vaca na condição de alcoviteiro.

 

1516

 

- Juan Díaz de Solís chega pela primeira vez ao Rio da Prata e morre em conflito com índios hostis.

 

1518

 

- No caminho para o Oceano Pacífico, Fernão de Magalhães passa alguns meses na região do Rio da Prata.

 

1519

 

- Cabeza de Vaca é citado em documentação do Arquivo de Protocolos de Sevilha como camareiro do duque [Alonso Pérez de Guzmán ou seu irmão Juan Alonso].

 

1520

 

- Data aproximada do casamento de Cabeza de Vaca com Maria Marmolejo, filha de García Marmolejo e Isabel de Herrera.

 

- Maria Marmolejo move um processo com o intuito de defender seus direitos à herança paterna.

 

Setembro, 16 – Cabeza de Vaca combate a revolta Comunera, que se estende até 1521. Crê-se que o casamento de Cabeza de Vaca oferece a chave para a compreensão do seu envolvimento na luta aberta contra os conversos. Primeiro, porque os Marmolejos eram uma família de conversos, e segundo, porque Álvar Núñez servia lealmente a casa de Medina Sidonia, que protegeu os conversos, derrotando a casa rival dos Arcos, que havia promovido a insurgência.

 

Dezembro, 5 – Enviado pelo duque de Medina Sidonia a Valladolid, testemunha a tomada de Tordesilhas.

 

Dezembro, 20 – Está presente na libertação de Tordesilhas pelo braço direito do rei, Fradique Enríquez.

 

1521

 

Março, 10 – A ameaça de um movimento genuinamente popular faz com que os ducados de Medina Sidonia e dos Arcos se unam para defender o controle aristocrático da cidade.

 

Abril, 23 – Cabeza de Vaca segue as forças imperiais até Villalar, onde os Comuneros são finalmente derrotados.

 

1522

 

- Participa da batalha de Puente de la Reina, em Navarra, numa das primeiras guerras ocasionadas pela rivalidade entre Carlos V e Francisco I de França.

 

1524

 

Agosto, 4 – Transfere as posses de seu irmão Juan (recentemente falecido) para sua irmã María. Neste documento, descreve a si mesmo como camareiro do “ilustre e magnífico duque de Medina Sidonia”.

 

1525

 

- Finda a divisão da herança, Maria Marmolejo é contemplada com uma modesta soma.

 

- Aleixo Garcia, um português sobrevivente da expedição de Juan Díaz de Solís ao Rio da Prata em 1516, viaja da Ilha de Santa Catarina até a beira do império inca procurando por riquezas. Com ele seguiam outros 5 ou 6 europeus e dois mil índios guaranis. Depois de conseguir alguma riqueza, Garcia é morto por índios nas proximidades do alto do rio Paraguai, no seu caminho de volta à costa.

 

1526

 

- Enquanto deveria estar em viagem às ilhas Molucas, Sebastião Caboto sobe o Rio da Prata com o intuito de explorar a região.

 

Novembro, 17 – Cédula real, inclusa na capitulação dada Cabeza de Vaca em 1540, ordena o fim dos maus tratos aos índios por parte dos espanhóis, mesmo que esses tivessem a intenção de convertê-los à cristandade. Mais ou menos 20 conquistadores, incluindo Pánfilo de Narváez (1526) e Hernando de Soto (1537), adicionaram esta cédula às suas capitulações.

 

1527

 

Fevereiro, 15 – Após deixar seu posto no palácio do duque de Medina Sidonia, Cabeza de Vaca parte para a Flórida na expedição de Narváez. Com a posição de tesoureiro real e com a garantia de ser regidor da primeira cidade a ser estabelecida, Álvar Núñez deve ter deixado a Espanha confiante em encontrar um “outro México” e viver de acordo com a tradição da família de Vera de conquista e governo militar. Embora o ciclo do ouro nas ilhas caribenhas – cuja exploração era de aluvião – estivesse próximo do fim, a Espanha e seus conquistadores continuavam sonhando com ouro.

Como tesoureiro da expedição, o salário anual de Álvar Núñez era de 130.000 maravedís.[3] Ele receberia o pagamento “do dia em que deixa o porto de Sanlúcar por tanto tempo quanto exercer o cargo”. Não havia benefícios hereditários; Cabeza de Vaca deveria servir como tesoureiro por quanto tempo quanto o rei assim quisesse. Suas responsabilidades abrangiam coletar rendimentos reais, cuja fonte mais importante era o quinto, a porção real (geralmente um quinto) de toda a produção da colônia; manter a contabilidade de todas as transações; coletar todos os rendimentos reais daquele território, incluindo a porção real de “escravos, ouro base [guanín], pérolas, pedras preciosas e o que mais nos pertença”, assim como a taxa de 5% sobre outro e prata derretidos, a renda de todos os trabalhos com sal, os 7,5% relativos a todos os bens importados; pagar os salários dos oficiais reais; fiscalizar o tratamento dado aos índios e relatar os fatos ao imperador.

 

Junho, 17 – Pánfilo de Narváez parte do porto de Sanlúcar de Barrameda, com poder e comando de Sua Majestade para conquistar e governar as províncias desde o Río de las Palmas até o Cabo da Flórida. Sua frota de 5 navios levava cerca de 600 homens.

 

1528

 

Abril – A expedição que leva Álvar Núñez parte de Cuba em direção à Flórida. Depois de um furacão, haviam sobrado apenas 400 homens e 80 cavalos.

 

Abril, 12 -  Sexta-feira Santa. Chegam à costa oeste da Flórida, possivelmente na  Baia de la Cruz (Tampa Bay). Numa cabana, encontram um objeto de ouro, que excita a imaginação de todos. Pouco depois, os índios dão a entender que o objeto viera de um lugar chamado Apalache, muito rico.

 

Maio, 1 – Narváez separa seus homens: os barcos seguem em busca do porto de Pánuco e a tropa adentra o território rumo à Apalache. Cabeza de Vaca contesta a decisão, mas acaba seguindo o grupo que irá a pé.

 

Junho, 25 – Os espanhóis chegam a Apalache, um amontoado de choças sem qualquer riqueza.

 

Julho, início – Chegada a Aute, onde encontram choças queimadas e mantimentos. Pouco adiante, numa baía, resolvem construir barcos para tentar encontrar Pánuco.

 

Setembro, 22 – Depois de um período difícil, de muito trabalho e pouca comida, os 250 espanhóis devoram o último cavalo e partem do local que batizaram, apropriadamente, de Baía dos Cavalos em cinco barcos precários e abarrotados.

 

Novembro, 6 – Depois de percorrer o lado ocidental da Flórida e o litoral dos estados do Alabama, Mississipi e Lousiana, até a costa do Texas, Cabeza de Vaca se separa dos outros barcos – num episódio em que Pánfilo de Narváez teria mandado cada um cuidar de si. Em seguida, naufraga e perde tudo, sendo acolhido pelos índios numa ilha que batizariam de Mau Fado.

 

Novembro, meados – Narváez desaparece no mar, durante a noite, quando seu barco perde a âncora improvisada com pedras. Jamais seria encontrado. 

 

1529

 

Início do ano – Cabeza de Vaca reencontra outro grupo de espanhóis, que viajava no barco comandado por Alonso del Castillo e Andrés Dorantes. Eles tentam partir da ilha, mas o barco sofre outro naufrágio.

 

Fevereiro – As duas tribos que vivem na ilha se separam. Cabeza de Vaca acompanha uma delas. Dorantes e Castillo seguem a outra. No continente, Cabeza de Vaca passa a trabalhar como comerciante, fazendo longas viagens pela região. Algum tempo mais tarde, ele volta a viver na ilha do Mau Fado, onde o último sobrevivente de seu grupo, Lope de Oviedo, recusa-se terminantemente a fugir, por não saber nadar.  

 

1532

 

Março, 19 – É concluída coletânea de depoimentos envolvendo o nome de Cabeza de Vaca. Ele era, então, considerado morto.[4] Esta coletânea fazia parte de um julgamento sobre a anulação do casamento do duque e da duquesa, Don Alonso de Guzmán e Dona Ana de Aragão e a validação do casamento de Dona Ana com o duque Juan Alonso de Guzmán. O motivo da anulação era a impotência sexual de Alonso Pérez, mas o aspecto mais notável é que mais ou menos 4 testemunhas afirmaram saber do fato não por terem sido testemunhas, mas porque o “falecido” Cabeza de Vaca teria contado a elas na época em que servia ao duque em seu palácio [entre 1513 e 1527]. Cabeza de Vaca aparentemente foi usado como a principal testemunha em favor da anulação do casamento justamente pelo fato de estar desaparecido e morto, provavelmente.

 

1533

 

Primavera – Cabeza de Vaca consegue dobrar a resistência de Lope de Oviedo e os dois deixam a ilha rumo ao sul. Ao encontrarem uma tribo pouco amigável, Oviedo decide retornar à ilha. Não seria mais visto. Cabeza de Vaca reencontra Castillo, Dorantes e o escravo deste, Estebanico, passando a viver com os mariames, também na condição de escravos.

 

1534

 

Setembro – O quarteto deixa a tribo dos mariames e junta-se aos avavares. Começam a realizar curas fazendo o sinal da cruz e rezando os doentes. Atraem assim a atenção de muitas tribos.

 

1535

 

Junho – Álvar Núñez deixa os índios Avavares, com quem convivia então. Parte, primeiro, em direção ao sudoeste; visita os índios Maliacones, Arbadaos e, aparentemente, os Cuchendados. Cruza, então, o Rio Grande até o que é, hoje, o México. Em vez de ir para o Sul, por Pánuco, vai em direção ao noroeste para evitar os índios da costa.

 

Agosto, 24 - Parte para o Rio da Prata a expedição de Pedro de Mendoza. Nela, viajam Alonso Cabrera (que viria a ser arquiinimigo de Álvar Núñez), Felipe de Cáceres, Pedro de Álvarado. A expedição de Pedro de Mendoza havia sido concebida não para desbravar, mas para estabelecer-se e explorar recursos na região. Onze navios levavam entre 1200 e 1500 pessoas, 100 cavalos e uma grande quantidade de animais domésticos. Esta expedição era comparável em tamanho somente à de Colombo (em 1493), à de Ovando (em 1502) e a de Pedrarias Dávila (em 1514) .

 

1536

 

Início do ano – O quarteto de sobreviventes chega ao Povoado dos Corações, próximo ao rio Yaqui, no Méxivo.

 

Abril – Junto ao rio Sinaloa, Cabeza de Vaca encontra o capitão Diego de Alcaráz. O espanhol se espanta com a figura estranha de um homem quase nu e barbado. “Eles me encararam por muito tempo, tão impressionados que não conseguiam falar comigo ou responder-me”, escreveria mais tarde Álvar Núñez.

 

Maio, 1 - Álvar Núñez conhece Melchior Díaz em Culiacán. Homem de boa reputação, prefeito e capitão da província da Nova Galícia, Díaz estava ansioso para ajudar os indígenas. Como a população local havia partido e seu trabalho havia sido perdido, Díaz considerava a região desperdiçada. Álvar Núñez podia ajudá-lo, chamando os índios fugitivos para que eles se estabelecessem como fazendeiros na terra desocupada. Díaz faz da cidade de São Miguel seu quartel-general na missão de trazer de volta os índios foragidos.

 

Maio, meados de – Cabeza de Vaca e seus companheiros partem de San Miguel até Compostela e depois para a Cidade do México.

 

Outubro – Cabeza de Vaca está pronto para partir para a Espanha. Nos últimos dois anos, caminhara quase 4500 quilômetros, desde a costa do Texas. A partida teve de ser adiada, pois uma tempestade destruiu o navio que o levaria.

 

1537

 

- No início do Ano, Pedro de Mendoza desiste da colonização do Rio da Prata. Após um curto período de convivência pacífica, os índios da região (caçadores e pescadores nômades) se cansaram de prover alimentação aos conquistadores e passaram a atacar. Inexperiência, doença, falta de comida e guerra tinham derrotado os colonizadores, dos quais em pouco tempo haviam morrido mais de 1000. Mendoza decide velejar de volta à Espanha para buscar ajuda, num navio chamado Magdalena. Como lugar-tenente, nomeou o Capitão Juan de Ayolas, que saíra em expedição de exploração alguns meses antes.

 

- Bulas do papa Paulo III, Veritas Ipsa e Sublimis Deus, lidaram com a questão da escravidão indígena e sua humanidade e racionalidade.

 

Fevereiro, 12 – Juan de Ayolas parte rumo ao Chaco com 130 homens, deixando Domingo de Irala no comando.

 

Abril, 20 – Enquanto Cabeza de Vaca parte do México em direção à Espanha, o Imperador nomeia Hernando de Soto como governador e adelantado da Flórida, cargo que Álvar Núñez pretendia obter.

 

Julho, 26 – Pedro de Mendoza morre de fome a caminho de Lisboa, no seu barco que navegava pelos Açores. Seu corpo é lançado ao mar.

 

Julho, 1 – Após partir de Havana, o barco de Álvar Núñez chega a Açores. O navio escapa de uma ameaça de um corsário francês e fica sob proteção de uma armada portuguesa comandada por Diego de Silveira; em seqüência, os barcos vão à ilha Terceira[5] e esperam lá por quinze dias antes de partirem para Lisboa. Ali estavam os integrantes da expedição de Pedro de Mendoza e entre eles, o piloto Gonçalo da Costa.[6] Cabeza de Vaca teria, então, ouvido falar dos problemas e das riquezas do Rio da Prata.

 

Agosto, 9 – Alvár Núñez chega a Lisboa, última escala antes da Espanha. Naquele mesmo mês, ele desembarca em sua terra e encarrega seu primo, Pedro Estopiñan Cabeza de Vaca, de organizar uma probanza [algo como uma prova jurídica] que comprove os feitos e a reputação de Pedro de Vera Cabeza de Vaca, seu avô paterno. Ainda em agosto, Alonso Cabrera chega à Corte para apresentar relatório dos eventos do Rio da Prata e, em sua reunião com o Imperador, é apresentado como inspetor das minas do Rio da Prata. Cabrera recebe uma provisão real que faria de Juan de Ayolas governador e, se ele não retornasse, o título seria entregue a quem Ayolas houvesse designado como seu lugar-tenente.

 

Agosto, 13 – Oficiais da Casa da Contratação, em Sevilha, informam a imperatriz de que em breve despachariam para o Rio da Prata quatro barcos que estavam sendo aprontados em Sanlúcar de Barrameda. Comunicam ainda que (Felipe de) Cáceres, o fiscal do Rio da Prata havia chegado a Lisboa e preparava um relatório acerca do infortúnio que tinham vivido Mendoza e sua companhia naquela conquista.

 

Agosto, 15 – Juan de Salazar de Espinosa, Gonzalo de Mendoza e Domingo Martinez Irala procuravam por Ayolas pelos rios Paraná e Paraguai. Neste dia, Salazar funda uma cidade, Nossa Senhora de Assunção, na baía de Caracará, na margem leste do rio Paraguai. Primeiro, havia apenas uma fortificação. Ulrich Schmidl, um soldado germânico que acompanhara Pedro de Mendoza, escreveu que os índios guaranis locais construíram a casa com pedra, terra e madeira. Por outro lado, Francisco de Villalta, que também viera com Mendoza, disse que os índios não estavam dispostos a fazer nada pelos espanhóis, que tiveram que construir por si mesmos.

 

Setembro, 12 – Carta da imperatriz anuncia à Casa da Contratação diz que dois mercadores de Sevilha – Martin de Orduña e Domingo de Zornoza – estavam preparando certos navios para navegar até o Rio da Prata sob o comando de Alonso Cabrera. Quando eles estavam quase prontos, notícias chegaram da morte do governador Pedro de Mendoza, e as preparações foram detidas. A imperatriz determina que mantenham a operação, já que Mendoza deixara Juan de Ayolas como seu sucessor no Rio da Prata. Em setembro, também, Alonso Cabrera recebe cédula real assinada pela rainha que confirmava o envio de ajuda aos espanhóis no Rio da Prata. Somente no caso de Mendoza não ter deixado lugar-tenente ou se este estivesse morto e não tivesse nomeado outra pessoa, as pessoas poderiam eleger como governador e capitão general da província aquele que perante Deus e suas consciências, parecesse o mais apropriado, dizia o documento. Se a pessoa que tivesse sido eleita também morresse, apenas mais uma eleição poderia ser feita. Esta cédula foi única, porque em nenhum lugar no Império Espanhol na América existiu tal concessão de eleições populares.

 

Outubro, 31 – A preparação da probanza sobre Pedro de Vera é autorizada em Jerez de la Frontera. Sua existência evidencia a intenção de Álvar Núñez ao prepará-la: usá-la como ajuda no tribunal, para que ele fosse um candidato merecedor de outra autorização para exploração e conquista nas Índias.

 

Novembro, 8/Dezembro, 24 – É entre esse período que Cabeza de Vaca se apresenta à corte em Valladolid. Ele teria, provavelmente, levado a probanza preparada por seu primo, com intenção de receber uma comissão real (tanto pela probanza, como pelo relato de sua expedição). Frustrado em seu desejo de ganhar o governo da Flórida, recebe o convite para ser o braço direito do novo governador, Hernando de Soto, mas recusa a oferta.

 

1538

 

- Os freis franciscanos Bernardo de Armenta, de Córdoba, e Alonso Lebrón, da ilha da Grande Canária, chegam à América com vários outros franciscanos e, desde então, passam a ensinar os índios.

 

- Juan de Ayolas e seus homens voltam ao porto de Candelária vindos do oeste, trazendo ouro e prata. Irala tinha ordens de estar esperando lá com os barcos, mas ele tinha ido a algum outro lugar. Depois de quatro meses, os índios paiaguás atacaram, matando Ayolas, 80 outros espanhóis e alguns carregadores

 

Abril – Hernando de Soto parte para a América.

 

Outubro – Alonso Cabrera chega Buenos Aires, com a determinação real de decidir o mando na cidade e estabelece um impasse, pois Pedro de Mendoza deixara Francisco Ruiz Galán no controle de Buenos Aires. Juan Salazar de Espinosa continuava em busca de Ayolas e Domingos Irala, que o sumido nomeara seu lugar-tenente também buscava o poder.

 

1539

 

Janeiro – Alonso Cabrera faz valer a cédula real de 12 de setembro de 1537 e declara Juan de Ayolas sucessor de Mendoza. Na ausência do governador, era preciso ter um substituto. apitão Francisco Ruiz Galán, nomeado lugar-tenente de Mendoza antes de partir para a Espanha em 1537 e Domingos Irala, braço direito de Ayolas. Por pouco não surge um conflito entre os rivais, mas Irala leva a melhor. 

 

Meados de 1539 - O já governador Irala deixa Assunção, em busca de Ayolas e da Serra de Prata. Passa semanas com água pela cintura, mas não encontra nem um nem outra.

 

1540

 

- No início do ano, chegam à Espanha notícias da possível morte de Juan de Ayolas. Representantes da província vão à Corte desde o Rio da Prata para informar sobre as privações que lá sofrem e para buscar ajuda e reforços, antes que todos morram. De acordo com o interrogatório preparado para a probanza de Cabeza de Vaca e o testemunho de diversas pessoas, esses oficiais eram o fiscal real do Rio da Prata, Felipe de Cáceres, e o piloto, António Lopez.

 

Março, 18 – Um contrato real é firmado com Cabeza de Vaca, cedendo-lhe o governo da província do Rio da Prata e o governo de todas as novas terras que ele viesse a descobrir, conquistar, e estabelecer-se. No entanto, Ayolas seria feito governador, se ainda estivesse vivo; cabendo a Álvar Núñez o controle da ilha de Santa Catarina por doze anos. Caso a morte de Ayolas se confirmasse, o cargo iria para Cabeza de Vaca. Seu salário anual era de 2000 ducados, mais outros recursos vindos de impostos, pagados somente pelas receitas da província. Para obter o posto, deveria gastar pelo menos 8000 ducados na compra de cavalos, suprimentos, roupas, armaduras, munições e outras coisas para a colônia.

 

Abril, 15 – Cabeza de Vaca recebe sua “licença” para “conquistar e pacificar e popular as terras”. Caso  Ayolas ainda esteja vivo, deverá apontar Álvar Núñez como seu lugar-tenente.

 

Julho, 1 – Depois de ter suas pretensões contestadas por Martin de Orduña que se apresentava como representante dos interesses de Juan de Ayolas, Cabeza de Vaca obtém uma cédula real determinando a proibição da entrada de advogados e promotores na província do Rio da Prata.      

 

Setembro, fins de – Os três navios de Cabeza de Vaca já estavam prontos para deixar Cádiz, mas o vento os detém no porto até 2 de dezembro.

 

1541

 

- No início do ano, Domingos Irala recebe notícias em Buenos Aires de que outros espanhóis haviam atracado na costa brasileira. Ele diria, mais tarde, que esperou por eles até junho, quando Alonso Cabrera ordenou a retirada de todas as pessoas de Buenos Aires. Irala abandonou a cidade e mudou os colonos para Assunção.

 

- Irala enfrentou duras batalhas contra os índios agazes, que descreveria mais tarde deste modo: “Com a ajuda de Deus, e o serviço dos índios Guaranis, nós destruímos muitas proles de outros índios que não têm sido amigos, especialmente os agazes”.

 

 

1541

 

Janeiro, 10. Depois de passar pela ilha das Palmas, no arquipélago dos Açores, Cabeza de Vaca chega à ilha de Santiago, em Cabo Verde, onde passaria 25 dias. Seus inimigos o acusariam depois de ter mandado matar algumas vacas na primeira ilha e de ter tomado mantimentos de um barco em Santiago. Acusações refutadas por ele no processo judicial.

 

- Álvar Núñez manda fincar um marco de pedra em uma ilhota em frente a Cananéia. Segundo seus inimigos, esculpida na pedra estavam as armas de sua família e não as do imperador. Cabeza de Vaca negaria a acusação.

 

Março, 29 – Depois de passar pelas Canárias e Cabo Verde, Cabeza de Vaca e sua expedição chegam à ilha de Santa Catarina, na costa do Brasil, onde ficam por oito meses. Nesse período, o franciscano Bernardo de Armenta e Antonio de Lebrón, que viviam por lá, juntam-se ao grupo. Cabeza de Vaca ordena Felipe de Cáceres a explorar a rota fluvial até Assunção pelos rios da Prata e Paraguai. Pouco depois disso, sete ou oito homens chegam em um pequeno barco para avisar acerca da morte de Ayolas. Álvar Núñez envia de 250 a 300 homens para subir o rio Iguaçu e mais tarde, com Francisco Chaves, outros para descer o rio Paraná – tudo isso após o reconhecimento do local por Pedro Dorantes (inspetor de minas indicado pelo rei).

           

Maio – Oito ou nove espanhóis de Buenos Aires chegam à Ilha de Santa Catarina dizendo que estavam escapando do tratamento duro dado pelos seus capitães. Eles também trazem notícias sobre a guerra entre os índios e os colonizadores naquele porto. Eles disseram que no interior, outros índios, os paiaguás mataram Ayolas e seus homens. Em Buenos Aires, disseram eles, haviam sobrado apenas 70 espanhóis, e a maioria deles havia se estabelecido em Assunção, uma cidade recentemente fundada no rio Paraguai .   Felipe de Cáceres, contador real, parte rumo a Buenos Aires numa caravela até Buenos Aires, mas acaba retornando, pois a viagem torna-se inviável por causa do vento sul. Cabeza de Vaca resolve utilizar o caminho por terra, anteriormente empregado por Aleixo Garcia.

 

Setembro - Chegam a Assunção os últimos moradores de Buenos Aires, que Domingos Irala mandara despovoar a partir de março. No local, ficou apenas uma carta para orientar eventuais visitantes.

 

Outubro, 18 – A expedição de Cabeza de Vaca segue rumo a Assunção, para onde iriam pelo caminho terrestre. Nesta fase, sobem o rio de barcos, até o ponto a partir de onde seguiriam a pé.

 

Novembro, 21 ou 22 – Álvar Núñez Cabeza de Vaca toma posse formal de um sítio no continente sul-americano, nomeando-o “Província de Vera”, em referência à linhagem paterna de sua família.

 

Novembro, 21 – Depois de 19 dias de caminhada tenaz, chegam a algumas vilas. Os índios eram guaranis, que o secretário de Cabeza de Vaca, Pero Hernández descreveria como “amantes da guerra” que comiam carne humana, e que já tinham matado vários portugueses.

 

Dezembro – O barco que trazia o primo de Cabeza de Vaca, Pedro Estopiñán Cabeza de Vaca, veleja desde a Ilha de Santa Catarina até Buenos Aires

 

1542

 

- É publicada em Zamora a Relación de Cabeza de Vaca sobre a experiência na Flórida.

 

- O governo da Espanha promulga as “Novas Leis,” baseadas nas idéias do frei Bartolomé de las Casas, assegurando tratamento humano aos índios do Novo Mundo. As leis seriam mal recebidas nas colônias.

 

Janeiro, 31 – Os viajantes chegam ao rio Iguaçu. Esse afluente do rio Paraná adentrava por um território onde se esperavam por índios prontos a atacar e matar os espanhóis. Por segurança, um grupo desceu o rio com canoas, enquanto outro guiava os cavalos pela margem. As quedas d’água fortes, recorrentes e com muitas pedras dificultavam a passagem. Depois de desviar as grandes cataratas do Iguaçu, eles chegaram à junção do rio Iguaçu com o Paraná.

 

Março, 11 – Às nove da manhã, o novo governador chega a Assunção. A jornada pelo continente tinha durado 4 meses. Mesmo ele e seu pessoal trazendo os suprimentos que tinham prometido, os 300 e poucos europeus tinham, de repente, mais 250 bocas para alimentar. Depois de alguma discussão acerca da morte de Ayolas, Cabeza de Vaca mostrou seu documento e autoridade a Irala e aos outros oficiais. Veio, então, a mudança formal de comando, quando todos ouviram a leitura dos documentos reais. Eles aceitaram sua autoridade, submeteram-se a ele como governador e capitão general, com alguma relutância.

 

Início de abril - Cabeza de Vaca estabelece novas regras de relacionamento com os índios. Proíbe a escravidão de mulheres, regulamenta o comércio e define que toda tribo pode ser considerada amiga, desde que aceite o poder dele, do imperador e de Deus. 

 

Abril, 29 – Cabeza de Vaca ordena os índios guaranis que parem de comer carne humana.

 

Maio – Morre Hernando de Soto, em conflito durante a tentativa de conquista da Flórida.

 

Julho, 12 – Uma dúzia de cavaleiros e 200 soldados, junto com 10 000 guaranis, marcharam de Assunção para irem atrás dos guaicurús, que tinham “quatrocentos homens de guerra”. Os caciques entregaram a Cabeza de Vaca arcos e flechas pintados e decorados com penas de papagaio.

 

Outubro, 20 – Domingos Irala e 90 espanhóis deixam Assunção para subir o rio Paraguai, levando três bergantins e vários índios. Ele planejava ir ao norte, para evitar as pessoas que mataram Juan de Ayolas, e então procurar por um lugar para adentrar a região a oeste do rio.

 

Dezembro – Pedro Estopiñan chega a Assunção com a nau capitânea de Cabeza de Vaca e os bergantins que o novo governador mandara rumo a Buenos Aires.

 

Dezembro, meados de – Quatro espanhóis e 1500 índios tentam explorar o interior. Contam com o apoio do cacique Aracaré, mas isso não se concretiza.  Depois de um mês explorando um campo vazio, enfrentando fome, sede e a morte, eles voltaram. Aracaré estava esperando e causou mais danos atacando tanto os espanhóis quanto seus aliados.

 

Fins de – Cabeza de Vaca ordena o fim da cobrança do quinto sobre as parcas posses dos colonos e promete pagar eventuais dívidas com seu salário. A medida desagrada os oficiais, cujos salários eram obtidos com essa cobrança.

 

1543

 

Fevereiro, 4 – Um grande incêndio dura quatro dias, destruindo as construções de madeira e palha que constituíam a cidade. Quando tudo acabou, havia apenas cinquenta casas em pé e duzentas casas queimadas. As perdas de roupas, comida, gado e munições também foram sérias. Pero Hernández escreveu que os espanhóis estavam tão arruinados, devastados e nus, “que nada restou com o que cubrissem seus corpos”.

 

Fevereiro, 15 – Domingos Irala volta a Assunção com boas notícias. Os índios haviam mostrado a ele um caminho do rio até o interior, e ele os seguiu por três dias através de uma região muito agradável. Eles tinham algum ouro e prata e amplos suprimentos para a conquista, e estavam dispostos a servir de guias. Irala batizou o lugar de Porto dos Reis, porque chegou lá por volta do dia 6 de janeiro, dia de Reis. Pareceu a ele não haver melhor ponto para a exploração começar.

 

Maio, 24 – Cabeza de Vaca ordena preparativos para uma nova jornada pelo interior.

 

Junho, 10 – Os freis Bernardo de Armenta e Alonso Lebrón fogem de Assunção, levando um grupo de índias. O movimento é parte de uma conspiração contra o governador. Os frades deveriam chegar ao Brasil e dali até a Espanha, levando cartas assinadas pelos oficiais reais, denunciando os abusos de Cabeza de Vaca.  Os frades foram localizados nas proximidades da cidade. Há interrogatórios e fica evidente o complô, mas o governador acaba perdoando a maior parte dos oficiais envolvidos.

 

Setembro, 8 – Cabeza de Vaca parte de Assunção com o intuito de continuar as explorações ao Chaco. A expedição sobe o rio Paraguai para chegar ao Porto dos Reis. São dez bergantins, carregando 400 espanhóis. Em 120 canoas, iam 1200 aliados.

 

Novembro, 8 – Cabeza de Vaca chega a Porto dos Reis e toma posse dele em nome do rei.

 

Novembro, 10 – Irala recebe novos cargos. É nomeado mestre de campo (comparável ao cargo militar de coronel) e chefe de magistrado.

 

Novembro, 26 – Passadas menos de três semanas, Cabeza de Vaca já estava pronto para iniciar a entrada pelo interior. Ele planejava avançar para o este a partir de Porto dos Reis, adentrando o território que logo seria conhecido como Chaco. Havia um grande número de guaranis, 300 espanhóis e 10 cavalos; eles levaram suprimentos para 20 dias. Depois de cinco dias de viagem, o guia ficou confuso. Ele logo confessou não saber para onde levá-los. Fazia tanto tempo desde a última vez que ele tinha caminhado por aqueles lados que ele não conseguia achar o caminho novamente.

 

Dezembro, meados de – Os exploradores chegam de volta a Porto dos Reis. Embora tivesse deixado a guarnição há apenas 20 dias, o governador a encontrou em tumulto. Cabeza de Vaca chamou os caciques e pediu que ficassem calmos e mantivessem a paz, uma vez que ele e os outros eram amigos e não haviam causado a eles problemas ou infelicidade. Os caciques concordaram em manter a paz e em afastar seus inimigos, mas eles disseram isso apenas para ganhar tempo, para que pudessem ver a fraqueza dos exploradores.

 

1544

 

Janeiro, 6 – Para tentar amenizar os problemas com os guaranis, Álvar Núñez ordena que ninguém leve índios como escravos. Aqueles que já estivessem nas mãos dos espanhóis deveriam ser devolvidos amigavelmente e sem obstáculos.

 

Janeiro, 12 – Francisco de Ribera chega a Porto dos Reis com ótimas novidades. Depois de ter explorado por 70 léguas, seu grupo havia chegado a uma terra com boa água, agradáveis arvoredos, frutas, mel abundante e boa caça de porcos e veados.

 

Janeiro, 30 – O terceiro grupo de exploradores chega a Porto dos Reis. Seu capitão, Hernando de Ribera, estava incapacitado de relatar diretamente ao governador, que estava muito doente. Não era o único acometido pela malária. Por três meses, quase todos em Porto dos Reis adoeceram.

 

Fevereiro – Cabeza de Vaca apresenta uma lista de acusações contra os índios perante os oficiais e os clérigos, que concordaram que era legal partir para a guerra. Então, depois que eles foram legalmente julgados como inimigos, ele “os declarou escravos, e guerreou contra eles”.

 

Março, 28 – O retorno a Assunção começa. Por mais que estivessem doentes, os espanhóis tiveram que lutar, pelo caminho de descida do rio, com os índios guaxarapos.

 

Abril, 8 – Chegam a Assunção. Cabeza de Vaca mal consegue ficar em pé e se recolhe à sua casa.        

 

Abril, 25 – Numa noite de sábado, o dia de São Marcos, cerca de trinta espanhóis invadem a casa de Álvar Núñez gritando: “Liberdade! Liberdade”! Empunhando espadas, adagas, arcos e arcabuzes, gritavam ameaças de morte.

 

Abril, 29 – Os novos oficiais da cidade em Assunção tentam tomar posse dos documentos e efeitos oficiais. Entre os itens a serem apropriados, duas malas de correspondência, que deveriam ser abertas. As chaves estavam com o governador, então Pedro Díaz del Valle ordenou a um auxiliar que exigisse a entrega delas. Cabeza de Vaca se recusa duas vezes, argumentando que ainda era o governador.

 

Agosto – Quatro meses depois da prisão do governador, os freis Bernardo de Armenta e Alonso Lebrón já estão prontos novamente para partirem em direção à costa do Brasil.

 

Dezembro, final de – Inquéritos contra Cabeza de Vaca organizados por seus adversários. Um trata do uso das armas de sua família no lugar das do imperador.

 

1545

 

Março, 7 – Próximo à meia noite, Garci Venegas, Alonso Cabrera e Pedro Dorantes retiram Cabeza de Vaca da prisão para embarcá-lo num pequeno barco rumo à Espanha. Ao ver o céu pela primeira vez em um ano, Álvar Núñez pede para dar graças a Deus. Quando vê os curiosos, grita para que todos fossem testemunhas de que indicava o capitão Juan de Salazar de Espinosa como seu lugar-tenente. A manobra não surte efeito e ele é embarcado à força. O tesoureiro real, Garci Venegas e o inspetor de minas, Alonso Cabrera seguem com ele, carregando dúzias de acusações de traição, escravização e assassinato de índios, roubos e outros crimes, resultantes dos processos abertos no tempo em que o ex-governador esteve preso. Alguns dias mais tarde, são presos Juan Salazar de Espinosa, Pedro Estopiñán e o secretário provincial de Cabeza de Vaca, Pero Hernández.

           

Abril, 21- Um grupo de oficiais espanhóis registra a posse de um território situado no que hoje é a Bolívia. O cerro de Potosí, que muitos tinham tentado alcanzar chamando de Serra de Prata. O documento oficial diz o seguinte:

 

Yo don Diego de Centeno, Capitán de S. M. I. Señor Don Carlos V en estos reinos del Perú, en nombre del Padre, del Hijo y del Espíritu Santo, y a nombre del muy Augusto Emperador de Alemania, de España y de estos Reinos del Perú, Señor Don Carlos V y en compañía y presencia de los capitanes Don Juan de Villarroel, Don Francisco de Centeno, Don Luís de Santandía del Maestre de Campo Don Pedro de Cotamito y de otros Españoles y naturales que aquí en número de 65 habemos, tanto señores de vasallos como vasallos de señores, posesióname y estaco de este Cerro, y sus contornos y de todas sus riquezas, nombrado por los naturales este Cerro Potosí y haciendo las primeras casas para nos habitar en servicio de Dios nuestro Señor en provecho de su muy Augusta Majestad Imperial señor Don Carlos V”. A primero de abril de este año del Señor de Mil e Quinientos y Cuarenta y Cinco: Capitán Don Diego de Zenteno, Capitán Don Juan de Villarroel, Capitán Don Francisco de Centeno, capitán Don Luís Santandia, maestre de campo, Don Pedro de Cotamito. No firman los demás, por no saberlo hacer, pero lo signan con este signo ". Pedro de Torres. Licenciado”.

 

Abril, 2 –Salazar de Espinosa, Pero Hernández e Pedro Estopiñan juntam-se a Cabeza de Vaca a quase 1.200 quilômetros de Assunção, depois de descerem o Paraguai e o Paraná acorrentados num bergantim.

 

Maio - Durante a viagem, o barco que leva os prisioneiros enfrenta uma grande tempestade. Os oficiais reais pedem perdão ao ex-governador e o libertam. O furacão cessa. Os oficiais propõem um acordo que ponha fim ao conflito e leve todos de volta ao Rio da Prata.  Todos jogariam fora papéis e cartas – tanto os que incriminavam o ex-governador quanto os que seus aliados tinham escondido a bordo. Cabeza de Vaca recusa a oferta e a viagem segue.

 

Julho, 16 – Venegas, Cabrera, Hernández, Salazar de Espinosa e Cabeza de Vaca chegam à ilha Terceira de Açores, onde o ex-governador Vaca consegue escapar, embarcando em outro navio.

 

Julho, 24 – Cabeza de Vaca escreve ao imperador, notificando Sua Majestade que, devido a eventos durante a viagem, ele agora considera melhor viajar separadamente da companhia dos oficiais reais e proceder à corte sozinho, com a necessária pressa, para fazer seu relatório.

 

Setembro, 2 – Relatório da Casa da Contratação à coroa informa: “Uma pequena embarcação chegou do Rio da Prata, carregando Alonso Cabrera, inspetor de minas, García Venegas, tesoureiro, Gonzalo da Costa, piloto real, e outros vinte e quatro ou vinte e cinco. Eles estavam trazendo como prisioneiro o governador Álvar Núñez Cabeza de Vaca para apresentá-lo ante o Conselho [das Índias] com relatórios e acusações contra ele; os oficiais reais daquela província o enviaram como prisioneiro. A primeira terra onde pararam para descansar foi a ilha Terceira. Outros à bordo retiraram o governador, que não queria viajar com eles [i.e., os oficiais reais], e ele veio em uma outra caravela a Cádiz”. O relatório continua, dizendo que Cabeza de Vaca escreveu à Casa da Contratação, presumivelmente logo após sua chegada a Cádiz, pedindo que Cabrera, Venegas e os outros fossem presos, mas as autoridades negaram esse pedido. Assim como se recusaram a prender os oficiais da coroa como o governador pediu, as autoridades também negaram aceitar totalmente os relatórios tanto dos oficiais reais quanto de Martín de Orúe, “porque todos eles vêm alinhados contra o governador”.

 

Setembro – Por volta do final da primeira semana, Cabeza de Vaca chega a Madrid. Seus inimigos tinham obtido uma dianteira decisiva.

 

Dezembro, 7 – Cabeza de Vaca envia a Relación General de seu governo no Rio da Prata para o Conselho das Índias. Ele garante sua representação jurídica durante o processo a Alonso de San Juan.

 

1546

 

Fevereiro, 20 – Cabeza de Vaca é preso sob as ordens do Conselho das Índias. Na prisão, responde a interrogatório preparado a partir das denúncias do fiscal do Conselho das índias, Juan de Villalobos. O fiscal Juan de Villalobos o acusou de roubar habitantes das ilhas Canárias em sua viagem rumo à América; saquear dois navios nas ilhas de Cabo Verde; não permitir o comércio com os índios na viagem da ilha de Santa Catarina até Assunção; abandonar 13 pessoas durante essa viagem; roubar provisões dos índios durante essa viagem; dar 25 índios aliados de comer aos guaranis; enforcar o cacique Acararé; usar uma medalha com uma cabeça de vaca gravada para atrair os índios; permitir a venda de garotas índias livres; restringir o comércio com os índios; estabelecer preços tão baixos que os escravos eram comidos em vez de vendidos; chicotear 4.000 guaicurús e destruit nove vilarejos; matar 3.000 socorinos em Porto dos Reis; marcar com ferro quente e vender seis índios como escravos; sobrecarregar carregadores índios e espanhóis durante sua entrada; tirar sem propriedade sem compensação; interferir no comércio; apoderar-se dos pertences dos mortos; chegar à província sem suprimentos o suficiente; colocar seu brasão no lugar do do Rei; chamar a si mesmo Rei e mestre da terra; gravar seu brasão junto ao do Rei; impedir os oficiais reais de escreverem ao imperador; tentar usar tortura para descobrir escritos escondidos dos oficiais; permitir que as leis impostas pelo imperador fossem quebradas; usar as leis tributárias reais em proveito próprio. Seu governo resultaria não em um, mas em quatro processos: (1) A ação criminal levada contra ele por conduta inadequada no cargo ocupado, pelo promotor do Conselho das Índias, Juan de Villalobos, que foi sucedido por três outros promotores, de pois por Martín Ruiz de Ágreda, antes que o caso se encerrasse; (2) uma ação criminal do promotor do Conselho contra dois  dos inimigos de Cabeza de Vaca, os oficiais derais do Rio da Prata, Alonso Cabrera e Garci Venecas, por agressões contra o governador; (3) o processo contra Cabeza de Vaca por Martín de Orduña, que alegou ser ele mesmo o sucessor de Juan de Ayolas, e por isso reclamava os direitos sobre o Rio da Prata; e (4) o processo de Villalobos e Cabeza de Vaca contra Martín de Orúe, por ofensas contra Cabeza de Vaca e o re .

 

Abril, 19 – Cabeza de Vaca deixa a prisão, para cumprir pena domiciliar, sob fiança de 1000 ducados paga por alguns amigos.

 

Junho, 26 – Cédula real determina as linhas gerais para o recolhimento de testemunhos por parte de Cabeza de Vaca. Deveriam testemunhar: “todos os corregedores, assistentes, governadores, alcaides, e outros juízes em todas as cidades e lugares destes reinos e domínios”.

 

Julho, 2 – Cabeza de Vaca informa que a probanza preparada por ele teria lugar em Córdoba, Écija, Jaén, Sevilha, Antequera, Baeza, Cádiz, Arjonilla, Linares, Toledo, Málaga, La Rambla, El Coronil, Vélez Málaga, Utrera, Jerez, Sanlúcar de Barrameda, Andújar, e “outros lugares nesses reinos”.

 

Julho 10 – Probanza de Andújar.

 

Julho, 11 – Durante os procedimentos do julgamento nesse dia, Alonso Cabrera, Felipe de Cáceres e Garci Venegas testemunharam reconhecer o brasão de Álvar Núñeze “apresentaram um cópia e desenho que reproduzia as armas e disseram que Álvar Núñez Cabeza de Vaca o usou e pintou no casco do navio no qual trabalhou e navegou o rio de Iriquay [sic]”.

 

Julho, 20Probanza em Santiponce, fora de Sevilha.

 

Julho, 28Probanza em Jerez de la Frontera.

 

Agosto, 7Probanza em Sevilha.

 

Setembro – Cabeza de Vaca obtém o direito de ser considerado um prisioneiro da corte (se le dé la corte por cárcel). Ou seja: está livre para circular pela cidade onde esteja a sede do reino, mas não para viajar.

 

1547

 

Julho, 22 – Juan de Sanabria, primo de Hernán Cortés, conquistador do México, recebe uma capitulação do rei para se tornar o próximo governador do Rio da Prata. O documento dizia que “por causa das diferenças e questões mostradas entre Álvar Núñez Cabeza de Vaca e as pessoas que estavam na província, ele foi trazido como prisioneiro a estes reinos, e não deve retornar novamente à província porque não é conveniente que ele faça isso”.

 

Setembro, 7 – O Conselho das Índias garante a Cabeza de Vaca o direito de ter o “reino como sua prisão”, sob a condição de que comparecer à corte, caso fosse convocado.  

Depoimento em Madrid de Juan de Salazar a favor de Cabeza de Vaca em seu processo contra os oficiais reais mostra que Cabrera e seus colegas procuraram reunir documentação para o processo contra Cabeza de Vaca e ir à corte o mais rápido possível com as acusações; eles chegaram à Europa de oito a dez dias antes do governador e o acusaram de ter ido ao rei de Portugal revelar os segredos as terras recém-exploradas.

 

1547

 

Domingos Irala deixa Assunção rumo à Serra de Prata. A expedição é tão grande que ficam menos espanhóis na cidade do que o contingente que parte. São 250 espanhóis, com 27 cavalos. Entre eles Nuflo de Chaves, Felipe de Cáceres e Pedro Dorantes. Com eles, um contingente de guaranis. Todos sobem o rio Paraguai até a localidade conhecida como San Fernando. Dali, avançam pelo Chaco, atacando diversas tribos.

 

1548

 

Irala e seus homens chegam às proximidades de Potosí, mas descobrem que a Serra de Prata tem donos – e que são espanhóis. Nuflo de Chaves vai até Lima, com cinco espanhóis e cem índios, em busca de autorização para tomar posse de alguma terra na região.

Novembro – Nuflo de Chaves chega à Lima, onde o vice-rei não deixa alternativa: Irala e seus homens devem voltar para Assunção.    

 

1550

 

Irala retoma o poder em Assunção, uma cidade partida ao meio, entre leales (partidários de Cabeza de Vaca) e tumultuarios. Tinha ocorrido até uma eleição na sua ausência, mas o capitão que ele deixara no comando fora derrotado e decapitado.  

 

Junho, 24 – Juan de Villalobos pede licença do cargo. Está muito doente e morre pouco depois.

 

1551

 

Março, 18 – Cabeza de Vaca é considerado culpado pelos juízes do Conselho das Índias. Perde odos os títulos que lhe haviam sido concedidos; é banido perpetuamente das Índias, sob pena de morte; exilado para a colônia de Oran, na Costa Bárbara (hoje Argélia) por cinco anos, onde deveria servir ao imperador com suas armas e cavalo (à sua própria despesa); e torna-se responsável por quaisquer danos de qualquer funcionário que reclamasse ter sofrido perdas devido ao seu governo. A sentença foi assinada por 5 conselheiros das Índias em Valladolid.

 

Abril, 6 – Na apelação da sentença, Cabeza de Vaca se defende acerca do brasão: Disse que usava o brasão com a cabeça de vaca como símbolo do governador ao falar com índios para evitar que desconhecidos enganassem-nos, indo falar em nome dele.

           

Abril, 11 – Cabeza de Vaca requer a revogação do impedimento de deixar a corte, a que estava submetido desde a proclamação da sentença (“alzar la carcelería que me está puesta”), para que ele pudesse apoiar-se e buscar justiça. Esse pedido lhe foi concedido mediante o pagamento de uma fiança.

 

Maio, 15 – O Conselho das Índias, em Valladolid, nega a petição de Cabeza de Vaca de anular sua sentença.

 

Novembro, 25 – Cabeza de Vaca requer a reabertura do processo à corte de Valladolid.

 

Novembro, 25 – O Conselho das Índias defere o requerimento feito por Cabeza de Vaca e confere 50 dias à defesa e à promotoria para apresentarem novas evidências.  

 

Dezembro – O promotor Martín Ruiz de Ágreda pede ao Conselho das Índias a ampliação do prazo de recolhimento das novas evidências de 50 para 120 dias e obtém deferimento.

 

1552

 

Agosto, 23 –Depois de analisar novos testemunhos, o Conselho revoga partes da sentença de Cabeza de Vaca. Seu banimento perpétuo às Índias é reduzido à jurisdição do Rio da Prata, e ele é aliviado da obrigação do serviço militar de cinco anos em Oran.

“A condenação de banimento perpétuo das Índias feita pela nossa sentença anterior deve ser entendida como referente ao governo e províncias do Rio da Prata e em mais nenhuma parte, com consideração à nossa sentença condenando o dito Álvar Núñez Cabeza a serviço em Oran com armas e cavalo a seu próprio custo por cinco anos, que, levando em conta as novas probanzas apresentadas diante de nós pela defesa em sua apelação, devemos revogar e revogamos a dita sentença, considerando a dita condenação a tal serviço” .

Após o fim do processo, Cabeza de Vaca ainda requisita o reembolso por suas perdas no Rio da Prata.

 

Dezembro, 8 – Requer perante o conselho de Jerez de la Frontera compensação devida a ele por serviços rendidos à corte em nome da cidade (atuou, durante o correr do processo, como representante e advogado na corte de Jerez de la Frontera); depois de ter recebido compensação parcial numa data anterior a esta, ele havia concordado em perdoar o débito e servir pro bono publico. Ele, então gostaria de receber a remuneração faltante, e o Conselho concordou com seu pedido.

 

1555

 

- Álvar Núñez estabelece sua residência oficial no distrito de San Salvador, em Jerez de la

- A segunda edição da relacíon escrita por Cabeza de Vaca ganha o título de Naufrágios e é publicada junto com os Comentários de Álvar Núñez Cabeza de Vaca, escritos por Pero Hernández, seu secretário e escrivão da província do Rio da Prata. A publicação foi formalmente autorizada pela coroa.

Em Assunção, Domingos Irala assume oficialmente o cargo de governador da província do Rio da Prata, após a morte de Juan de Sanabria e do desaparecimento de seu sucessor e filho, Diego.

 

1556

 

Setembro, 15 – Cédula real garante a Cabeza de Vaca 12.000 maravedis “para ajudar a cura de sua doença”. Domingos Irala morre em Assunção, depois de ter sido governador formalmente aceito pela coroa por apenas 15 meses.

Outubro, 3 – Domingos Irala morre em Assunção, vítima de “dolor de costado”.

 

1559

 

Março, 13 – Acordo da fiança em torno da libertação de Hernán Ruiz, assinado por Cabeza de Vaca e Pedro Sierra Granado. O documento é o último conhecido no qual Cabeza de Vaca aparece. Solicita que Simon Dino, comissário do rei de Argel, fizesse o pagamento (que não deveria exceder 130 ducados de ouro) em nome de Cabeza de Vaca e Sierra Granado e entregasse o prisioneiro Hernán Ruiz ao reino de Castela.

 

Março, 19 – No mesmo registro do acordo de fiança, uma nota nomeia Álvar Núñez como responsável pelo pagamento da fiança: “el cual estando presente otorga la dicha fianza y se obligó”. É o último registro oficial com o nome de Cabeza de Vaca, que morreu em data e local incertos.



[1] O título de Duque de Medina Sidonia foi concedido em 17 de fevereiro de 1445 a Juan Alonso Pérez de Guzmán y Orozco, III Conde de Niebla, como prêmio aos serviços prestados à coroa de João II de Castela. O ducado persiste até os dias de hoje e é considerado o mais importante do Reino de Espanha – é o ducado hereditário mais antigo. Esta casa teve também grande importância histórica; recebeu em 1520 a Grandeza de España de Primera Clase o Inmemorial, que se concedeu às principais linhagens nobres da Espanha [http://es.wikipedia.org/wiki/Ducado_de_Medina-Sidonia – acesso: 02/04/2007, 18h42].

[2] Juan Alonso Pérez de Guzmán y Afán de Ribera, Enrique Pérez de Guzmán y Fernández de Velasco, Alonso Pérez de Guzmán y Zúñiga, Juan Alonso Pérez de Guzmán y Zúñiga, respectivamente [http://es.wikipedia.org/wiki/Ducado_de_Medina-Sidonia – Acesso: 02/04/2007 18h52].

[3] Para se ter uma idéia do valor relativo desse pagamento, Álvar Núñez receberia quase o dobro disso no futuro: 150.000 maravedís como Governador e um adicional de 100.000 maravedís como capitão general.

[4] Estava, de fato, em algum lugar na costa do Texas atuando como mercador entre grupos nativos e procurando algum meio de se encaminhar ao assentamento espanhol em Pánuco [The Life_062-5].

[5] Como indica seu nome, foi a terceira ilha dos Açores a ser descoberta, depois de Santa Maria e de São Miguel [http://pt.wikipedia.org/wiki/Terceira – acesso em 26 de março de 2007, às 11h16].

[6] Correspondência entre os oficiais da Casa da Contratação em Sevilha e a Imperatriz, começando com uma carta escrita somente dois dias depois da chegada de Cabeça de Vaca a Lisboa, revela que ele seguiu a rota para casa levado por membros sobreviventes da expedição de Mendoza.