Em 11 de abril de 1512, Cabeza de Vaca formou ao lado dos soldados da chamada Liga Sagrada (os reis católicos da Espanha e os estados pontifícios) contra os franceses. Foi a maior batalha da guerra da Liga de Cambrai, parte das chamadas guerras italianas.  O combate, vencido pelos franceses, custou a vida de 20 mil espanhóis, mas o fato dos espanhóis e seus aliados não terem sido definitivamente batidos foi decisivo para a retirada dos franceses. Cabeza de Vaca saiu gravemente ferido na batalha de Ravena e como prêmio por sua bravura recebeu a honraria de carregar o estandarte real quando as tropas entraram em Gaeta, perto de Nápoles.

Nas batalhas da época, o papel das armas de fogo ainda era relativo. Haviam melhorado muito desde o século IX quando as primeiras foram construídas na China, após a invenção da pólvora. Os árabes começaram a fabricar canhões de madeira, reforçada com cintas de ferro no século XIII. Cem anos mais tarde, surgiram os canhões de bronze, mais seguros. As primeiras armas de fogo foram construídas no século XV e provocaram uma revolução, dando maior importância aos soldados.

Mas o mosquete, a primeira arma portátil era um equipamento precário: pesava dez quilos e era tão difícil de recarregar (o soldado precisava introduzir o pavio e a bala pela boca do cano) que depois do primeiro tiro era muito mais fácil usar a espada. Os cartuchos tinham pólvora de quantidade e qualidade inexatas. Com tudo isso, acertar um alvo em movimento com um tiro era complicado.

Testes feitos na Alemanha bem mais tarde (em 1790) demonstram a imprecisão das armas: um alvo de 30 metros por 1,8 metros de altura (supostamente representando a frente de um batalhão) serviu para as provas. A 200 metros, apenas 25% dos tiros atingiram o alvo. A 140 metros, 40%  e a 70 metros, 60% dos disparos tocaram no alvo. E isso, muito embora tais testes tenham sido feitos longe de um campo de batalha, com todo o nervosismo, a fumaça e alvos em ação.

Quer dizer: os tiros só funcionavam a distâncias muito pequenas, o que mantinha a importância da cavalaria – pelo menos em campo aberto, como ocorria na Europa. Na infantaria havia rodeleros e ballesteros. Os primeiros usavam espadas e escudos redondos. Versáteis, capazes de lutar em espaços diminutos, como a coberta de um navio, funcionavam bem contra as táticas de guerrilha dos não europeus. A rodela era um escudo de aço ou madeira reforçada com couro, de sessenta centímetros de diâmetro. Ballesta, “besta” em português, é mais conhecida como a arma de Guilherme Tell. Essa antiga arma portátil composta de um arco e uma haste que o atirador usa para disparar, ainda em uso no tempo de Cabeza de Vaca, que avançou pelo território brasileiro utilizando o caminho do Peabiru acompanhado por 24 cavaleiros, cinquenta arcabuzeiros, cinquenta espadachins (rodeleros, no original) e cem arqueiros (ballesteros, no original).

A cavalaria, estratégica nos combates realizados na Europa, simplesmente não deu resultado no rio da Prata. Não que os índios encarassem com tranqüilidade os cavalos. Pero Hernández relata a admiração e o medo que eles tinham dos animais:

Era uma coisa impressionante de se ver como os cavalos eram temidos pelos índios de toda a terra daquela província; de tanto medo que eles tinham, desviavam os cavalos do caminho, oferecendo-lhes mantimentos como galinhas e mel, dizendo que não ficassem bravos, porque eles lhes dariam de comer; e, por tê-los acalmado, que não desamparassem seu povo (...)

Mas não foi possível repetir na província do rio da Prata a façanha de Hernán Cortés no México, em que um punhado de soldados subjugou um império, em boa parte apoiado no temor que os índios tinham dos cavalos. Na América do Sul, não havia cavalos suficientes, nem terreno para que eles demonstrassem seus poderes.

Na selva paraguaia, no Chaco e no pantanal, os espanhóis não teriam chance de sucesso sem firmarem alianças com certas tribos – notadamente a dos guaranis. Mas com esse apoio maciço (em certas ocasiões, foram apoiados por dois mil nativos em pé de guerra) Cabeza de Vaca passou quatro anos sem ter sido gravemente ferido. Levou um tiro de raspão durante a perseguição aos guaicurus, disparado por um espanhol que confundiu o ataque de uma onça com o dos índios e certa noite, no acampamento de Porto dos Reis, acordou com a cama encharcada de sangue. Começou a procurar pelo ferimento, mas seus companheiros desataram a rir, pois sabiam que era apenas uma mordida de morcego.