Durante a pesquisa para escrever a biografia da heroína brasileira Anita Garibaldi[1], o escritor, jornalista e roteirista Paulo Markun interessou-se pela história de Álvar Nuñez Cabeza de Vaca. Depois de ter vivido peripécias inacreditáveis na América do Norte, este espanhol obteve o direito de conquistar e explorar a ilha de Santa Catarina, no litoral brasileiro. E caso um certo Juan de Ayolas estivesse morto, poderia também tornar-ser governador do Rio da Prata. Depois de passar alguns meses na ilha, onde ouviu falar de um caminho que levava até Assunção, na época a capital da província, Cabeza de Vaca foi a pé até o Paraguai. Assumiu o cargo de governador do Rio da Prata e mudou as relações com os índios. Fracassou na busca da Serra de Prata, objetivo de nove entre dez conquistadores da época e acabou derrubado do poder.

Após onze meses detido numa cela úmida – e de algumas tentativas mal sucedidas de voltar ao poder – foi levado a ferros para a Espanha. Preso e acusado de traição, perdeu o cargo. Anos mais tarde, foi condenado a viver no exílio, gastando todos os seus recursos para tentar se reabilitar.

Embora seja um dos episódios mais significativos e fantásticos ocorridos na América do Sul durante o século XVI, a passagem de Cabeza de Vaca pelo continente é praticamente ignorada pelo grande público.

Tal desconhecimento decorre do fato da expedição por ele comandada ter sido um fracasso do ponto de vista da política espanhola e, ao mesmo tempo, uma ameaça para as pretensões portuguesas sobre a região que o tratado de Tordesilhas delimitava.

O drama de Cabeza de Vaca também tem como pano de fundo o vaivém ideológico que movimentou a corte espanhola na primeira metade do século XVI. Em torno de 1540, a idéia de converter os índios pacificamente disseminou-se na Espanha. Dez anos antes, frei Bartolomé de Las Casas defendera persuasão e condenando a força na conversão dos selvagens em Del único modo. Em 1537, as bulas papais Verita Ispsa e Sublimis Deus condenaram a escravidão dos índios e os identificavam como seres humanos e racionais. Paralelamente, a cobiça da prata dos incas corria solta.

O mais veraz e relevante testemunho dessa saga foi publicado em 1555 com o título de Naufrágios e Comentários. Na verdade, duas obras com distintos objetivos. A primeira, escrita pelo próprio Cabeza de Vaca, registra o que tinha vivido na América do Norte. O segundo, assinado pelo seu secretário Pedro Dorantes está mais próximo de ser foi um libelo de defesa do conquistador acusado de traição.

Ao longo dos séculos, o relato de Cabeza de Vaca conquistou dezenas de admiradores e um punhado de críticos. O escritor norte-americano Henry Miller foi um dos que renderam-se à história e a seu autor:

Para mim, a importância deste registro histórico não está no fato de que De Vaca e seus homens foram os primeiros europeus a atravessar o continente americano, que abriram caminho que outros exploradores seguiriam, ou que suas peregrinações provaram a existência de uma massa de terra de proporções continentais ao Norte da Nova Espanha, ou mesmo porque, com seus inflamados protestos, De Vaca fez terminar – ainda que momentaneamente – as bárbaras capturas de escravos naquela região; mas sim porque, em meio a suas provações, depois de anos de infrutíferas e amargas peregrinações, um homem que já havia sido um guerreiro e um conquistador fosse capaz de dizer:

- Ensinarei o mundo a conquistar pela bondade, não pela matança.

Porque, no curso de suas atribulações e triunfos, Cabeza de Vaca veio finalmente a compreender que “um homem é tanto quanto ele é perante Deus e não mais”, para usar as palavras de São Francisco. A jornada é o simples e comovente relato de um homem destituído de tudo e obrigado a agir em cada momento de sua vida sob a visão de Deus.

Paulo Markun recorre aos Naufrágios e Comentários, mas vai além e acrescenta o resultado de um mergulho em 900 páginas de documentos do processo judicial a que foi submetido, material que até agora não fora transcrito nem examinado cuidadosamente. Páginas que permitem avaliar o quão rigoroso foram Álvar Núñez e seu secretário particular Pero Hernández, quanto ao que realmente aconteceu em seu governo no Rio da Prata.


[1] Publicado em 1999, pela editora Senac São Paulo, o livro já vendeu mais de 15 mil exemplares.

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