Relación escrita por Álvar Núñez Cabeza de Vaca sobre todos os fatos ocorridos desde sua chegada à costa do Brasil e ao Rio da Prata, em que se prova que ele tomou posse da ilha de Cananéia.  

Relação geral que eu, Álvar Núñez Cabeza de Vaca, adelantado e governador e capitão-geral a provincial do Rio da Prata, pela graça de Sua Majestade, faço, para informá-lo e aos membros de seu Real Conselho das Índias, de coisas que aconteceram na dita provincial, para a qual me dirigi, a partir deste reino, para socorrer e conquistar.

Primeiro: No Segundo dia do mês de dezembro do ano de 1540, eu deixei a baía de Cádiz rumo ao mar, com quatro embarcações, 400 homens e 46 cavalos e éguas, para ir à dita Província do Rio da Prata.

Segundo: Em 29 de março do ano de 1541, cheguei com minha armada à ilha de Santa Catarina, que fica a 28 graus na costa do Brasil.

Terceiro: Nesta ilha de Santa Catarina eu desembarquei todas as pessoas e os cavalos, com ordem de se certificarem de que havia espanhóis residindo na província e também para informá-los de que eu estava chegando para socorrê-los, por ordem de sua Majestade e para em seu nome tomar posse da dita ilha.

Quarto: Anteriormente, eu tomara posse, em nome de Sua Majestade, de Cananéia, que fica aos 25 graus mais ou menos na dita costa do Brasil; este porto de Cananéia está a 50 léguas da dita ilha de Santa Catarina.  

Quinto: Na minha chegada na dita ilha de Santa Catarina, eu dei aos nativos da mesma, como também aos que viviam na dita costa do Brasil, vassalos de Sua Majestade, bom tratamento e muitos presentes para mantê-los contentes e fui informado por ele que a 14 léguas daquela ilha, no local que chamam de Biasa, havia dois frades franciscanos, um chamado frei Bernardo de Armenta, um cordobês e o outro, frei Alonso Lebrón, natural das Ilhas Canárias; e poucos dias mais tarde os ditos frades vieram até onde eu estava, muito preocupados e irritados com os índios, que queriam matá-los e disseram que as casas dos ditos índios tinham sido queimadas e por isso eles se rebelaram e mataram dois cristãos, um deles chamado Simão Pereira, que vivia na dita terra e eu abriguei os ditos frades e os protegi, para que pudessem catequizar os índios daquele país e despendi grandes esforços em acalmá-los e fazê-los amigos.

(Os parágrafos de seis a onze não foram copiados)

Décimo-segundo: No décimo oitavo dia do mês de outubro, do dito ano de 1541, eu determinei o embarque de todos os homens que deveriam seguir para a dita descoberta com 26 éguas e cavalos que sobreviveram à viagem pelo oceano e levei-os até o dito rio Itabocu, de que tomei posse em nome de Sua Majestade e na dita ilha de Santa Catarina eu deixei 140 pessoas, para seguirem por mar até o dito porto de Buenos Aires e nomeei Pedro Estopiñan Cabeza de Vaca como capitão daquela gente, para que aos eu ter deixado a dita ilha e ter obtido suprimentos para as pessoas que levava consigo, alcançasse o dito porto e o socorresse; e aos índios da dita ilha, antes da minha partida, eu dei muitas camisas e bonés e outras coisas para deixá-los contentes e eles ofereceram-se voluntariamente, para seguirem comigo mostrando o caminho e carregando as provisões necessárias para o sustento das pessoas.

(Os parágrafos XIII a XX não foram copiados)

Vigésimo-primeiro: Eu marchei longo tempo através da dita terra e província de Vera sem ter qualquer informação dos nativos sobre as pessoas que viviam na dita cidade de Assunção, até que no caminho encontrei um nativo da costa do Brasil, que se apresentava como Miguel, recentemente convertido, que vinha de onde estavam os ditos cristãos e ia para seu país e que me informou sobre o que acontecera naquele dito país e consentiu em retornar em minha companhia para guiar e informar sobre o caminho e a partir daí os índios que tinham vindo da ilha de Santa Catarina, carregando os suprimentos, voltaram muito felizes pelo bom tratamento dado a eles e pelas coisas que receberam em troca. Durante o mês de janeiro do ano de 1542, cheguei a um rio chamado Piquiri, numa região onde encontrei muita gente e rico em suprimentos como não vira por ali e como muitos patos e galinhas e veados e peixes. As margens daquele rio eram habitadas por muita gente e nas terras e povoados por onde passei entendiam e se comunicavam com uma só língua e eram da raça chamada Guaranis. Eles me receberam com muito prazer e satisfação e dei-lhes o que trazia e bom tratamento. Foi ali que um cachorro feriu um certo Francisco de Ortijon (sic) na perna.

Vigésimo-segundo: Desse rio Piquiri, eu mandei uma carta, por intermédio dos índios do dito rio, aos oficiais de sua Majestade e aos capitães da dita cidade de Assunção, avisando de minha chegada por ordem de Sua Majestade e ordenei que mandassem dois barcos para transportar as pessoas e cavalos e para assegurar a passagem pelo rio Paraná, onde os nativos eram ferozes e tinham matado os portugueses. Nesse rio Piquiri eu deixei 14 homens doentes, entre os quais aquele mordido por um cachorro e encarreguei os índios de protegê-los e ajudá-los a ir para onde eu fora.

Vigésimo-terceiro. Por essa terra e província, eu caminhei perto de cinco meses sem distúrbio ou conflito com os índios; nesse tempo caminhei 400 léguas, quase 200 delas abrindo caminho por canaviais, campos e florestas. Eu sempre ia a pé e descalço para estimular meus homens a não desanimar, por causa do trabalho duro ao longo do caminho, abrindo picadas e construindo pontes para cruzar muitos rios e nós sofremos enormes privações.

Vigésimo-quarto. Todo esse território da província de Vera é a melhor terra, com as melhores águas, rios, córregos, saltos, campos e árvores que eu jamais vi e muito mais e é uma região muito boa para colonizar e plantar e criar todo tipo de gado e muito saudável e todas as pessoas que vivem nesta terra, como já disse, são da raça dos guaranis, trabalham como camponeses e criam galinhas e patos, como a gente do campo de nossa Espanha; um povo acolhedor e amigável e pronto para ser conquistado, com pouco problema, para a nossa fé católica.

Vigésimo-quinto. Eu cheguei a um rio chamado Iguaçu, que desemboca no rio Paraná -  e o rio Piquiri, de onde eu vinha também vai até o dito rio Paraná - e cruzar esse rio, como já disse é sabidamente perigoso. Decidi mandar 18 homens em algumas canoas que comprara dos índios, descendo o rio Iguaçu para encontrar o Paraná e assim fiz e mandei por terra os outros homens e cavalos até a foz, de modo que com uns de um lado e outros do outro, pudéssemos passar sem perigo.  

Vigésimo-sexto. Há no dito rio Iguaçu uma queda d´água, razão pela qual eu e meus homens achamos melhor carregar as canoas por terra, até deixar a cachoeira para trás e as carregamos por mais de um quarto de légua, puxando-as com a força de nosso braços, até voltarmos ao rio e seguir para o rio Paraná e quis Deus que os que foram por terra e as canoas chegaram ao mesmo tempo, razão pela qual os índios não nos atacaram, embora houvesse muitos deles reunidos por lá e comecei a entregar presentes e a dizer boas palavras para o cacique, o que os acalmou; e com as canoas fiz quatro balsas, nas quais ao longo de seis horas passei os homens e os cavalos em paz, com os índios me ajudando.

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