Descobri a história do conquistador Alvar Núñez Cabeza de Vaca ao fazer a pesquisa sobre a colonização do estado de Santa Catarina, durante a preparação da biografia da heroína brasileira Anita Garibaldi, publicada em 1999 e que nesses últimos anos vendeu mais de 15 mil exemplares, um grande resultado em termos do mercado editorial brasileiro.
Desde logo, fui conquistado pela epopéia desse espanhol que chegou à ilha de Santa Catarina, no litoral brasileiro, com o cargo de governador do Rio da Prata, depois de ter vivido uma verdadeira odisséia na América do Norte, percorrendo 18 mil quilômetros descalço e nu, sobrevivendo graças ao curandeirismo entre os índios da região.
Resolvi então contar essa história para o grande público do Brasil e da América espanhola. Primeiro, por meio de um documentário sobre a viagem que o levou do litoral catarinense até Assunção, onde viviam centenas de espanhóis. Imaginei desde logo recriar a cena em que, depois de uma longa viagem pela rede de trilhas conhecida como Caminho do Peabirú, normalmente utilizada pelos guarani, o conquistador se espanta diante da força e da grandeza das cataratas do Iguaçú.
O objetivo secreto da viagem do conquistador por terra era descobrir o acesso para as lendárias minas de prata do Rei Branco, localizadas no território que constituiria o Peru. Mas ele não teve lá muita sorte na capital da província: seu governo foi curto e tumultuado. Parte por causa da mudança na relação com os índios, parte em função de modificações na cobrança de impostos. Mas também por sua falta de habilidade política. E, acima de todo, por não ter encontrado a prata que povoava o sonho de todos os colonos.
Cabeza de Vaca en Sudamérica, uma parceria com o produtor João Roni, da Ocean Films, foi inscrito no concurso de seleção de projetos de documentários apoiados pelo Discovery Latin America e assim fomos para Valencia, defender nosso filme. Fomos bem recebidos e aplaudidos, mas era caro demais para os parâmetros da emissora.
Na volta, passamos por Sevilha, onde constatei que havia centenas de páginas de documentos jamais transcritos, sobre os processos judiciais envolvendo o personagem. Na comemoração dos 500 anos do descobrimento da América, a maior parte do material preservado no Arquivo das Índias foi digitalizado. As pastas dedicadas ao caso de Cabeza de Vaca ficaram fora do projeto, talvez pelo fato dele não ter um posto no panteão dos grandes heróis da conquista do Novo Mundo.
Nos últimos 200 anos, as páginas soltas desses processos foram compulsadas ali no Arquivo por vários pesquisadores, mas nenhum deles fez um trabalho sistemático de avaliação dos testemunhos, em busca de detalhes capazes de confirmar ou desmentir as afirmações do próprio Cabeza de Vaca e de seu secretário particular, Pero Hernández, autores de Naufrágios e Comentários.
Graças ao empenho de um veterano da transcrição, Francisco Sánchez Rico – e dos recursos do Grupo Telefônica, oferecidos por meio de um projeto aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura, foi possível realizar essa avaliação.
A conclusão evidente é de que muitas acusações feitas contra Cabeza de Vaca tinham fundamento, outras eram invencionices. Existem certos pontos que não podemos averiguar com o devido rigor, sem contaminar a interpretação com a paixão de quem considera o personagem um herói ou um vilão. Por isso, a conclusão fica para o leitor.
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