Ao chegar à América, o homem europeu era tipicamente medieval. Vivia em um mundo que acreditava piamente, fora criado por Deus em seis dias, um universo cuja totalidade dos elementos já era conhecida pelo homem. O novo, para o homem medieval, não é algo que ele nem imagine do que se trata; é algo que ele já sabe que existe, mas ainda não teve a oportunidade de ver pessoalmente.
Nesse cenário, a “descoberta” de uma terra nova, só pode ser encarada como um complemento do mundo previamente conhecido. Um problema teológico sério se coloca: se só foram salvos do dilúvio os animais que Noé abrigou em sua arca, como explicar as espécies que só existiam na América, desaparecendo na Europa? Se Deus fizera esses animais numa segunda leva de criação, então o mundo não fora feito em seis dias. No tempo das grandes navegações, os animais encontrados na América eram vistos como variações dos animais existentes na Europa; seriam espécies que migraram após o dilúvio para lugares distantes, nos quais se adaptaram melhor – o que explica em parte certas denominações desses estranhos bichos.
No esforço de descrever para os que ficaram na Europa tudo o que podia ser visto no local da conquista é que surgiram sereias repugnantes, com rostos parecidos com os de homens – eram os peixes-bois. Aparecem também ursos com focinho alongado, que se alimentavam de formigas – osos hormigueros ou, para nós, tamanduás. As capivaras eram uns grandes porcos d’água, de focinho rombudo, muito maiores do qualquer um que se pudesse ver na Espanha. A lhama, animal tipicamente andino, que sobe montanhas e está adaptada ao ar escasso, foi comparada às ovelhas criadas em rebanhos na Europa, de certo pelo uso análogo de sua pelagem.
A natureza, de uma maneira geral, obviamente também era objeto de comparações. Apesar das diferenças entre a Espanha e o pantanal, com seu clima tropical, vegetação muito mais densa, o autor dos Comentários não desistiu de buscar semelhanças sempre que possível:
“Pela margem havia muitas árvores de canafístula, muito parecida com a existente na Espanha, sendo apenas um pouco mais grossa e de gosto mais áspero. Mas as pessoas comiam muito delas. Também comiam muitas frutas selvagens que havia ao longo do rio. Havia também um limão ceutense que, na cor e no gosto, não diferia em nada do existente na Espanha, sendo apenas bem mais pequeno. Apesar da grande diversidade de árvores selvagens existentes ao longo do rio Paraguai, a maior parte delas se assemelha às existentes na Espanha, porém quanto ao pescado há enorme diferença, pois seguidamente tiravam do rio tipos de peixes de que nem podíamos imaginar a existência. Quando a navegação ia devagar, tinham oportunidade de andar caçando daqueles porcos da água, bem como lontras, que também existem em grande abundância, tudo se constituindo num bom passatempo.”
Fontes:
HERREN, Ricardo. La Otra Cara de la Conquista. Viaje a las Indias Maravillosas. Barcelona: Planeta, 1993.
CABEZA DE VACA, Álvar Núñez. Naufrágios e Comentários
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