O primeiro europeu a desembarcar no litoral que a capitulação autorizada por Carlos V atribuiria a Cabeza de Vaca foi um francês. Binot Paulmier de Goneville, nobre da Normandia (região norte da França), partiu do porto de Honfleur em 24 de junho de 1503, no comando do l'Espoir (o Esperança). Seu destino eram as Índias Orientais. Fez escala em Cabo Verde e em vários pontos do litoral africano. No Cabo da Boa Esperança, onde uma tempestade desviou seu navio da rota original, levando-o até as proximidades do estuário de um pequeno rio, que ele compara ao Orne. No dia 6 de janeiro de 1504, ele alcançou o que mais tarde seria identificado como a ilha de São Francisco, em Santa Catarina. Ali permaneceu por seis meses. Tornou-se amigo dos índios liderados por um ancião chamado Arô Içá, que os franceses chamavam de Arosca. Na viagem de volta levou consigo Içá Mirim, o filho do cacique, então com 14 anos de idade. Prometeu à Arosca que o traria o menino de volta em 20 meses, mas o naufrágio do Espoir no litoral da França impediu-o de cumprir a palavra Dizem terem permanecido no dito país até o mês de julho seguinte, por estar o navio tão carunchoso e gasto que tinha grande necessidade de limadura: no que foi empregado não pouco tempo, por falta de operários com prática nessas coisas.
E aí os companheiros do navio decidiram voltar à França, recusando-se a navegar do dito lugar até a Índia, dizendo que aquele mar ainda não fora navegado por cristãos, que o tempo fora perdido, e também o principal piloto, que era a principal fiança da viagem; e que, ainda mais, o dito navio não poderia aguentar tal percurso. De modo que, por essas e outras razões, que todos endossaram, para desencargo do Capitão, foi decidida a volta à Cristandade.
A Relação verdadeira da Declaração de Viagem é um documento em francês, apresentado ao almirante da Normandia, em 1505. O texto chegou ao grande público em 1663, de forma adulterada, mas o documento original foi localizado em 1847 e publicado em 1869. A seguir trechos interessantes do texto, cuja íntegra pode ser conferida em http://www.cfh.ufsc.br/~simpozio/
(...) Dizem também que, durante sua permanência na dita terra, conversavam cordialmente com as gentes dali, depois que elas foram cativadas pelos cristãos por meio das festas e pequenos presentes que estes lhes faziam; sendo os tais Índios gente simples, que não pediam mais do que levar uma vida alegre sem grande trabalho; vivendo da caça e da pesca, e do que a terra lhes dá de per si, e de alguns legumes e raízes que plantam; indo meio nus, os jovens e a maioria dos homens usando mantos, ora de fibras trançadas, ora de couro, ora de plumas, como aqueles que usam em seus países os egípcios e os boêmios, exceto que são mais curtos, com uma espécie de avental amarrado sobre as ancas, indo até os joelhos, nos homens, e nas mulheres até o meio das pernas; pois homens e mulheres se vestem da mesma maneira, exceto que a vestimenta da mulher é mais longa.
(...) E usam as fêmeas, colares e pulseiras de osso e de conchas; não o homem, que usa, em vez disso, arco e flecha tendo por virotão um osso devidamente acerado, e um chuço de madeira muito duro, queimado e afiado no alto; o que constitui toda a sua armadura.
E vão as mulheres e as meninas com a cabeça descoberta, tendo os cabelos gentilmente trançados com cordéis de ervas tingidos de cores vivas e brilhantes. Quanto aos homens, usam longos cabelos soltos, com um círculo de plumas altas, de cores vivas e bem dispostas.
(...) Dizem ainda terem entrado no dito país, aí avançando por dois dias, e ao longo da costa mais tempo, tanto à direita como à esquerda; e terem notado que o país é fértil, provido de muitos animais, pássaros, peixes, árvores, e outras coisas singulares desconhecidas na Cristandade, cujas formas o falecido senhor Nicole Le Febvre de Honfleur, que fazia a viagem como voluntário, curioso e personagem de saber, tinha retratado; o que se perdeu com os diários de bordo por ocasião da piratagem do navio; perda em razão da qual muitas coisas e boas observações são aqui omitidas.
(...) Também dizem que o dito país é medianamente povoado. E as habitações dos índios formam aldeias de trinta, quarenta, cinquenta ou oitenta cabanas, feitas à maneira de galpões com estacas unidas umas às outras, ligadas por ervas e folhas, com as quais os ditos habitantes são igualmente cobertos; e têm por chaminé um buraco, para fazer sair a fumaça. As portas são bastões corretamente ligados; e eles as fecham com chaves de madeira, quase como as que se usam, nos campos da Normandia, nos estábulos.
E seus leitos são esteiras macias cheias de folhas ou penas, suas cobertas são esteiras, peles de animais ou plumagens; e seus utensílios domésticos são de madeira, mesmo as panelas, mas estas são revestidas de uma espécie de argila da espessura de um dedo, o que impede que o fogo as queime.
(...) Também dizem ter notado que o dito pais está dividido em cantões, cada um com seu Rei; e embora os ditos Reis não sejam mais bem alojados e vestidos do que os outros, são muito reverenciados por seus súditos; e nenhum é tão atrevido que ouse desobedecer-lhes, já que eles têm poder de vida e de morte sobre seus vassalos. Disso alguns do navio viram um exemplo digno de memória, a saber, o de um rapaz de dezoito a vinte anos que, num momento de exaltação, deu uma bofetada em sua mãe; tendo isso chegado ao conhecimento do chefe, embora a mãe não se tenha queixado, este mandou buscar o rapaz e ordenou que o jogassem no rio, com uma pedra no pescoço, depois de chamar, por aviso público, os jovens da aldeia e das aldeias vizinhas; e ninguém conseguiu obter remissão, nem mesmo a mãe que, de joelhos, veio implorar perdão para seu filho.
O dito Rei era aquele em cuja terra permaneceu o navio; seu nome era Arosca. Seu país tinha a extensão de um dia, e era povoado de cerca de uma dúzia de aldeias, cada uma das quais tinha seu capitão particular, e todos obedeciam ao dito Arosca.
(...) O dito Arosca tinha, ao que parece, uns sessenta anos, e era viúvo; tinha seis filhos machos de trinta até quinze anos; e vinham, ele e os filhos, frequentemente ao navio. Homem de postura grave, estatura média, gordinho, de olhar bondoso; em paz com os Reis vizinhos, mas ele e estes guerreavam com outros povos das terras interiores: contra os quais investiu duas vezes, durante a estada do navio, levando de quinhentos a seiscentos homens cada vez. E da última vez, seu retorno foi motivo de grande alegria para todo o seu povo, porque ele tinha alcançado grande vitória; suas ditas guerras não eram mais do que excursões de poucos dias contra o inimigo. E ele bem que gostaria que alguns do navio o acompanhassem com suas armas de fogo e artilharia, para atemorizar e desbaratar seus ditos inimigos; mas disso a gente se escusou.
Também dizem que não notaram nenhum sinal particular que distinguisse o dito Rei dos outros Reis do dito país, dos quais cinco vieram ver o navio, afora que os ditos Reis usam na cabeça plumagens de uma única cor; e seus vassalos, pelo menos os principais, usam em seus círculos de penas algumas da cor de seu chefe, que era o verde na do dito Arosca, seu hospedeiro.
(...) Também dizem que se os cristãos fossem anjos descidos do céu não seriam mais estimados por esses pobres índios, que estavam todos assombrados com a grandeza do navio, com a artilharia, os espelhos e outras coisas que eles aí viam, e sobretudo com o fato de que, por um recado escrito que se enviasse de bordo aos tripulantes que estavam nas aldeias, se lhes fizesse saber o que se queria; eles não conseguiam explicar como o papel podia falar. Também por isso os cristãos eram por eles temidos, e pelo amor de algumas pequenas liberalidades que lhes faziam, pentes, facas, machados, espelhos, miçangas e outras bugigangas, tão amadas que por elas se deixariam esquartejar, e lhes traziam abundância de carne e peixes, frutas e víveres, e tudo o que eles viam ser agradável aos cristãos, como peles, plumagens e raízes para tingir; em troca do que lhes eram dadas quinquilharias e outras coisas de baixo preço: de modo que reuniu-se cerca de cem quintais das ditas mercadorias, que na França teriam alcançado bom preço.
(...) Dizem também que, desejando deixar, no dito país, marcas de que ali haviam chegado cristãos, foi feita uma grande cruz de madeira, alta de trinta e cinco pés ou mais, bem pintada; a qual foi plantada num outeiro com vista para o mar, em bela e devota cerimônia, tambor e trombeta soando, em dia bem escolhido, a saber, o dia de Páscoa de mil quinhentos e quatro. E foi a dita cruz carregada pelo Capitão e pelos principais do navio, todos descalços; e ajudavam-nos o dito chefe Arosca e seus filhos e outros índios notáveis, que para tanto foram convidados de honra; e eles se mostravam alegres. Seguia a tripulação armada, cantando a ladaínha, e um grande povo de índios de todas as idades, aos quais há muito fazíamos festa, quietos e muito atentos ao mistério.
(...) Plantada a dita cruz, foram dados vários tiros de escopeta e artilharia, e oferecidos festim e presentes honestos ao dito chefe Arosca e principais índios; e quanto à populaça, não houve ninguém a quem não se fizesse algum dom de bugigangas baratas, mas por eles prezadas, tudo para que o fato lhes ficasse na memória; dando-lhes a entender, por sinais e de outras formas, o melhor possível, que eles deviam conservar e honrar a dita cruz.
E nesta estava gravado, de um lado, o nome de nosso Santo Padre o Papa de Roma, do Rei nosso Senhor e do Senhor Almirante de França; do Capitão, burgueses e companheiros, do maior até o menor. E fez o marceneiro do navio essa obra, o que lhe valeu um presente de cada companheiro. Do outro lado foi gravado um dístico numeral latino composto pelo senhor Nicole Le Febvre acima citado, que de gentil maneira declarava a data do ano da chantadura da cruz, e quem a havia chantado; e ali estava:
HIC SACRA PALMARIVS POSVIT GONIVILLA BINOTVS;
GREX SOCIVS PARITER, NEVSTRAQVE PROGENIES.
(...) Dizem ainda que estando finalmente o navio limado, calafetado e abastecido o melhor possível para a volta, foi decidido que se partisse para a França.
E porque é costume daqueles que chegam às novas terras das Índias levarem delas à Cristandade alguns índios, tanto se fez, com tal gentileza, que o dito chefe Arosca consentiu que um de seus filhos jovens, o qual se dava bem com os do navio, viesse à Cristandade, já que se prometia ao pai e ao filho trazê-la de volta dentro de vinte luas ao mais tardar; pois assim eles contavam os meses. E o que lhes dava mais vontade: faziam-no crer que, àqueles que viessem do lado de cá, ensinariam a artilharia; o que eles desejavam intensamente, para poderem dominar seus inimigos: como também a fazer espelhos, facas, machados e tudo o que viam e admiravam dos cristãos; o que era prometer-lhes tanto como prometer a um cristão ouro, prata e pedrarias, ou ensinar-lhe a pedra filosofal.
Tendo acreditado firmemente nessas coisas, o dito Arosca estava contente de que levassem seu filho, que se chamava Essomericq; e deu-lhe por companhia um índio de trinta e cinco ou quarenta anos, chamado Namoa. E vieram, ele e seu povo, em escolta até o navio; fornecendo-lhes muitos víveres, numerosas e belas plumagens e outras raridades, como presentes que eles enviavam ao Rei nosso Senhor. E o dito chefe Arosca e os seus esperaram a partida do navio, fazendo o Capitão jurar que voltaria dali a vinte luas; e na hora da partida o povo todo soltou um grande grito, e davam a entender que conservariam bem a cruz; fazendo o sinal dela com dois dedos cruzados.
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