Ao longo dos Naufrágios, Cabeza de Vaca descreve dezenas de tribos, vários animais, algumas paisagens, além de hábitos e costumes dos nativos, da Flórida ao México. De modo geral, na condição de observador distanciado, quase um antropólogo. Mas há exceções. Uma daas passagens mais intrigantes do livro é a que apresenta o Mala Cosa, ou Coisa Ruim. Nesse caso, o autor simplesmente incorpora a história contada pelos índios. Primeiro, com alguma desconfiança e reserva. Depois, como se houvesse uma base factual para o caso.
É provável que, ao narrar a história do Mala Cosa, Cabeza de Vaca tivesse a intenção de ratificar a ideia de que não só era possível cristianizar os índios, como demonstrar a humanidade deles, tese defendida pelo frei Bartolomé de las Casas e confirmada pelas chamadas Leyes Nuevas. Álvar Núñez estaria tentando mostrar desse modo que esses índios já haviam entram em contato com conflitos entre o bem e o mal de um tipo muito semelhante aos conflitos cristãos. Eles se sentiam perseguidos por uma espécie de “anjo mau”, que tomava a forma por vezes de homem, por vezes de mulher. Cabeza de Vaca pode, com esse argumento, inclusive justificar sua própria atuação naquelas aldeias, como médico, colocando-se na posição do que combate o mau. Os quatro sobreviventes seriam assim protagonistas de uma luta do bem contra o mau, do cristão contra o pagão. Agir em nome do Senhor, nessas circunstâncias, deixa de ser blasfêmia, mas uma necessidade. Querem dizer que Deus de fato os enviou para realizar boas obras àquelas pessoas, especialmente tentadas por um mau espírito.
Mas que ele ficou impressionado com as vítimas da maligna criatira, isso ficou.
Esse tipo de mito, que retrata uma criatura maligna com características mágicas ou divinas está muito presente de diversas formas em culturas de todo o mundo. Na América do Norte encontra especial coerência entre as várias narrativas. Relatos aparecem no Popol Vuh, livro que contém a cosmologia quiché maya, transcrito e preservado pelo frei franciscano Bernardino de Sahagún e pelo dominicano Francisco Jiménez. Lá aparece a história dos gêmeos sagrados Xbalanque e Hunahpu que enganaram os Senhores da Primeira e da Sétima Morte, destruindo-os em um ritual de decapitação e desmembramento do qual eles supostamente deveriam sair renascidos. Sobre as instituições, os costumes e as crenças dos astecas, Sahagún fez uma exaustiva coleta de material para escrever seu livro Historia General de las Cosas de Nueva España. Ficou de fora do livro a versão asteca desse mito, mas os registros foram preservados. Eles chamavam esse tipo de criatura de “O Destruidor” (el destrozador).
O motivo do riso e estranhamento dos espanhóis diante das histórias sobre o Mala Cosa não teria sido por acharem os relatos completamente absurdos. Absurdo era o fato de o próprio diabo vir a terra fazer suas más obras. Isso porque acreditavam que o modo de atuação do “anjo mau” era a influência dos homens e a enganação dos seus sentidos. Esse modo de pensar, muito difundido pela Europa na época, foi explicado por Las Casas na sua Apologética historia sumaria. Os sentidos poderiam ser enganados tanto fisicamente – visão, audição de coisas que não existem ou são de fato outra coisa – como psicologicamente – através da subversão do senso comum, o estímulo da imaginação e da fantasia. A enganação dos sentidos era uma explicação geral para os acontecimentos ditos “sobrenaturais” e era usada de muita cautela antes de se afirmar que o tal fenômeno tivesse sido causado pelo demônio. Antes disso, era preciso considerar outras duas possibilidades: ser uma obra humana, feita propositalmente para enganar ou não, sem qualquer intervenção diabólica, ou então; causas naturais, que não vêm de intervenção humana ou diabólica. Somente caso fosse provado que não era nenhuma das duas coisas a obra do diabo passava a ser considerada. Assim mesmo, não como uma mostra pura da maldade, mas como parte de um teste de cuja ciência tinha o Senhor. Certos bruxos, ou feiticeiros, poderiam auxiliar a ação do demônio na terra através de pactos ou parcerias feitas com ele.
Após verificar todas as possibilidades, conversar com os indígenas, perceber o medo que todos tinham de até mesmo falar no assunto e observar as marcas deixadas nos corpos dos indígenas, Cabeza de Vaca e seus companheiros passaram a levar mais a sério o que lhes foi dito e até mesmo temer as ações do Mala Cosa. Esse é o momento da narrativa em que o narrador mais valoriza o papel dos europeus na vida dos nativos, que busca mostrar como foi importante a chegada do cristianismo (através deles) naquela região.
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