Ritual mágico dos Tupinambás
Ritual mágico dos Tupinambás
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No local que batizaram de ilha do Mau Fado, os espanhóis fizeram as primeiras experiencias como curandeiros, por imposição dos índios: “Tentaram nos transformar em médicos, sem nos pedir para prestar exames ou apresentar nossos diplomas”, ironizaria Cabeza de Vaca mais tarde em suas memórias.
Os espanhóis recusaram a tarefa, achando graça, mas acabaram cedendo diante de um argumento imbatível: não seriam mais alimentados, caso se recusassem. O argumento final foi exibido por um índio taxativo: se até as pedras tinham “virtude” e podiam curar, o que dizer dos homens. Foi o que amoleceu o grupo, segundo Cabeza de Vaca: 

Vimo-nos, pois, numa situação de tanta necessidade, que tivemos que fazer algo, na certeza de que não seríamos punidos por isso. Era essa a maneira que eles tinham de curar: quando alguém ficava doente, chamava um curandeiro; e depois da cura entregava a ele tudo o que possuía e ainda pegava coisas dos parentes para lhe dar. Os curandeiros fazem incisões no lugar da dor e chupam em volta. Costumam cauterizar as feridas com fogo, o que consideram muito eficaz, e posso afirmar que experimentei e deu certo. Depois disso, eles sopram onde dói e acreditam que, dessa forma, espantam a doença. A forma como procedíamos em nossas curas era fazendo o sinal da cruz, soprando sobre os doentes, rezando um pai-nosso, uma ave-maria e rogando a Deus Nosso Senhor que lhes desse saúde e fizesse com que nos tratassem bem. Quis Deus Nosso Senhor, em sua divina misericórdia, que todos por quem pedimos e que abençoamos dissessem aos outros que estavam curados. Por causa disso, nos tratavam bem e deixavam de comer para nos alimentar; nos davam peles e outras coisas.

No final de 1534, quando os quatro sobreviventes se juntaram aos índios avavares, a fama de curandeiros já se espalhara. Na primeira noite, pediram a Alonso del Castillo que curasse a dor de cabeça que atormentava vários na tribo. Castillo rezou e abençoou-os com o sinal da cruz e a dor de cabeça sumiu no ato. Como recompensa, o espanhol recebeu tunas e um pedaço de carne de veado _ que os espanhóis demoraram a perceber o que era, após tanto tempo sem comer carne.

Em pouco tempo, os quatro estavam cercados de índios em busca de alívio para suas dores e mazelas.

O escambo entre as várias tribos, muitas delas antagônicas, levou a fama dos curandeiros a se espalhar rapidamente. Certo dia, um grupo de susolas recorreu à magia dos espanhóis. Levado para a aldeia, Cabeza de Vaca deparou com um sujeito moribundo. Rezou o fulano, fez vários sinais da cruz. Pouco depois, os índios lhe informaram que o morto-vivo ressuscitara.

A partir desse momento, cresceu tanto a reputação do quarteto que uma legião de índios passou a acompanhá-los. Ao reencontrarem os espanhóis, a milhares de quilômetros, quase quatro mil nativos os seguiam.