O tratado de Tordesilhas, firmado na cidade espanhola de mesmo nome em 1494, foi uma tentativa de resolver no plano diplomático, as disputas entre as duas nações que lideravam a corrida dos “descobrimentos”. Em 1455, uma bula papal havia reconhecido o direito de Portugal sobre as terras descobertas no governo do infante d. Henrique.

Mas os espanhóis não se conformaram com a hipótese de serem alijados da exploração da costa africana. Após uma série de hostilidades entre as duas coroas ibéricas foi firmado o Tratado de Alcáçovas, assinado a 4 de Setembro de 1479 na vila alentejana do mesmo nome, pelo qual Castela reconheceu os direitos dos portugueses ao domínio da costa africana e das Ilhas Atlânticas, com exceção das Canárias que ficariam sob controle do reino espanhol.

A viagem de Colombo e a subsequente comunicação de suas descobertas ao rei de Portugal recolocaram o problema. Pelo raciocínio lusitano, as terras por ele tocadas pertenciam ao rei d. João II, por estarem dentro da zona de predomínio que lhe fora atribuída no Tratado de Alcáçovas. Evidentemente, a tese não foi aceita pelos reis católicos.

O novo impasse levou os dois países à mesa de negociação, onde ficou estabelecido que a linha de separação entre os interesses de Portugal e de Espanha, deixava de ser um paralelo para passar a ser um meridiano.

As tratativas não impediram que o papa Alexandre VI, um espanhol de Valência, editasse duas bulas, as Inter Cetera, reconhecendo o direito de posse dos espanhóis sobre as terras descobertas por Colombo. O que levou representantes dos dois países a se reunirem na vila de Tordesilhas, onde após, em 7 de junho de 1494, após quase um mês de conversa, foram assinados os acordos que seriam reunidos no Tratado de Tordesilhas. O texto, ratificado pelos Reis Católicos, a 2 de Julho de 1494 em Arévalo, e por D. João II em Setúbal, no dia 5 de Setembro do mesmo ano definia (…)” o traçado de uma linha, de pólo a pólo, a 370 léguas a Ocidente das ilhas de Cabo Verde; e que todas as ilhas e terra firme achados e descobertas, e por achar e descobrir, a oriente desta linha, fiquem e pertençam para sempre ao Rei de Portugal; e a Ocidente da mesma fiquem e pertençam para sempre aos Reis de Castela, Aragão, etc …”

Portugal asseguraria a Castela o direito de passagem no espaço que lhe pertencia e nenhum dos monarcas recorreria ao poder papal para modificar o acordo. Mas havia um problema enorme: como estabelecer precisamente o ponto do oceano por onde passava a tal linha imaginária, a 370 léguas a ocidente do Cabo Verde? Embora os negociadores tenham estabelecido dez meses para que a linha fosse pactuada por uma comissão de marinheiros, astrônomos e pilotos de Castela e Portugal, após uma expedição conjunta, a questão técnica seria pretexto para uma disputa política e territorial por muito tempo. Essa indefinição sustentou a disputa sobre as ilhas Molucas e na América do Sul, permitiu ao irmão de Martim Afonso tomar posse do rio da Prata, do mesmo modo e com a mesma falta de conseqüências práticas com que Cabeza de Vaca se assenhorou de Cananéia – mandando esculpir um marco de pedra que foi fincado na areia.

O meio empregado para verificar a velocidade de deslocamento dos barcos era a estima, uma resultante do tempo medido em ampulhetas com rumo e a velocidade dos navios, definidos no olho, literalmente. Para acabar com a incerteza, marinheiros, cartógrafos e curiosos propuseram métodos alternativos, baseados em eclipses solares e lunares, nos satélites de Jupiter, na ocultação de astros pela Lua, em relógios e até na instalação de morteiros ao longo da costa e ilhas, que disparariam a intervalos regulares! Em 1598, Filipe III da Espanha ofereceu 10.000 ducados como prêmio. Galileu apostou que o caminho era medir o tempo a patir das luas de Júpiter, mas não convenceu o rei. Os holandeses levaram o italiano mais a sério, mas ele acabou trombando com a inquisição.

Na realidade, a maneira mais simples de estabelecer uma posição longitudinal de uma embarcação é calcular a diferença entre a hora local de dois pontos na superfície terrestre, já que a cada 15 graus de longitude para leste, a hora local é acrescida de uma hora. É simples saber a hora local de qualquer ponto, a partir da observação do sol, mas só um preciso relógio a bordo permitiria contar o tempo a partir de determinado local.

Quase 200 anos após o tratado de Tordesilhas, o rei Charles II da Inglaterra fundou o Observatório Real com o objetivo de resolver o problema da longitude em alto mar. Foi ali que se desenvolveu o método lunar, cuja complexidade impediu sua aceitação pela maioria das novagadores. Em 1707 o parlamento britânico promoveu o chamado Queen Anne Act, oferecendo um prêmio valiosíssimo para quem encontrasse a solução definitiva.

A construção de cronômetros portáteis de madeira, por John Harrison solucionou a questão. Entre os anos de 1720 e 1730, o inglês projetou uma série de relógios de precisão notável, eliminando o problema da deformação do pêndulo devido à temperatura, atingindo a precisão de um segundo em um mês. Ainda assim, a comissão relutou em conceder-lhe o prêmio, o que só ocorreria após vários testes práticos. A derradeira demonstração da eficácia do relógio de Harrison ocorreu na viagem do capitão Cook, em 1772. Enquanto o H5 foi testado pelo Rei em 1772, o Capitão Cook da marinha Britânica tinha partido na sua segunda viagem com o K1, a cópia de Kendall do H4. Ele retornou à Inglaterra em 1775, depois de uma viagem de três anos pelos trópicos e Antártica. A variação diária do K1 nunca excedeu 8" (correspondendo a uma distância de 2 milhas náuticas no equador) durante a viagem inteira.