Tão fascinante quanto os processos judiciais envolvendo Álvar Núñez Cabeza de Vaca são os chamados pleitos colombinos, uma longa disputa judicial entre a coroa espanhola e os herdeiros de Cristovão Colombo. Após 1492, seus filhos Hernando e Diego, ainda muito meninos, vão de pobres a nobres: são admitidos na corte como pajens do príncipe D. Juan. Hernando (nascido em 1488 e falecido em 1539) vai algumas vezes para a América, mas seu lugar é a Europa: vive cercado de livros, tem uma grande biblioteca. Foi assessor de Carlos V, de cujo séqüito forma parte quando ele sai da Espanha para coroar-se Imperador da Alemanha.
É para manter o nome e a fama do pai que Hernando se põe a escrever a vida de Colombo, cuja fama estava em xeque. No contrato prévio com a coroa, Colombo assegurara certas concessões muito vantajosas, confirmadas depois de seu regresso da primeira viagem. Entre outras vantagens, ele se transformava (numa nomeação hereditária) em almirante, vice-rei e governador de todas as terras que se descobrissem e por descobrir nas partes das Índias. Não se sabe o que teria acontecido se Dona Isabel de Castela tivesse vivido mais, mas seus marido, Fernando, não se preocupava muito em desdizer-se quantas vezes considerasse necessário. É preciso lembrar que os Reis Católicos tinham dado a batalha em seus reinos a uma nobreza desmandada e anarquizante, e não consentiriam que surgisse novamente um poder excessivo, desta vez do outro lado do Atlântico.
Não foi preciso esperar as conquistas do México e do Peru para que a Coroa cortasse as asas dos descendentes do primeiro almirante, Colombo, pois já em 1511 limitaram seu vice-reinado às Antilhas. Isto não significava deixar Diego e Hernando na pobreza, mas claramente não se ajustava ao que tinha sido capitulado com seu pai em 1492 e 1493. Os descendentes de Colombo pleitearam com a Coroa em defesa de uns privilégios que não poderiam ser mantidos sem que eles chegassem a ser muito mais poderosos que os próprios reis.
Hernando foi o mais intransigente defensor da manutenção dos privilégios na sua forma original. Interveio dos pleitos durante anos e anos, primeiro como assessor de seu irmão Diego, que morre em 1526, e logo depois, de sua viúva e de seu filho Luis.
Pressionada pelos descendentes de Colombo, a coroa apelou para uma série de subterfúgios. O fiscal Juan de Villalobos tentou desacreditar o navegador de todas as maneiras, rebaixando seu papel na empresa do descobrimento.
Hernando Colombo produziu a defesa escrita dos feitos do pai por isso e para rebater duas obras da época: o livro de Gonzalo Fernández de Oviedo, Historia General y Natural de las Indias (1535): Nesse livro, o autor alega o pertencimento da América pelos Espanhóis desde pelo menos 1558 antes de Cristo. Agustín Giustiniani, em seu Castigatissimi Annali (1537) destacou a condição humilde da família de Colombo (uma verdade, mas vergonhosa para alguém que busca mercês tão altas como o título de Vice-Rei e Governador das Índias).
Hernando escreveu a obra nos seus últimos anos de vida (há nela referências aos dois livros acima), e não publicou em vida. A primeira publicação foi bancada por um argentino de nome Torre Revello, em 1571, em Veneza.
Bibliografia sobre o tema:
- Hernando Colón. Vida del Almirante Don Cristóbal Colón. México: Fondo de Cultura Económica, 1947. Prólogo por Ramón Iglesia.
- Altolaguirre y Duvale, Angel de. Cristóbal Colón y Pablo del Pozzo Toscanelli. Madrid: 1903. (a 2ª parte é mais relevante).
- Ballesteros Beretta, Antonio. Cristóbal Colón y el descubrimiento de América. Barcelona: 1945, 2v.
- Gandía, Enrique de. Historia de Cristóbal Colón. Análisis crítico de las fuentes documentales y de los problemas colombinos. Buenos Aires: 1942.
- Morison, Manuel Eliot. Admiral of the Ocean Sea. A life of Christopher Columbus. Boston: 1942. 2v.
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