Cristovão Colombo levou oito anos para encontrar quem acreditasse em seu sonho: alcançar as terras descritas por Marco Pólo em seu Livro das Coisas Maravilhosas. Desde 1479[1], o cabo Bojador, em frente ao deserto do Saara, era a fronteira marítima para os espanhóis. Dali para diante, costeando a África, estava o único caminho conhecido para as Índias – e as ilhas Molucas, a terra das especiarias. Caminho exclusivo dos portugueses, conforme estabelecido em bulas e tratados. Mas se a terra fosse redonda, quem navegasse rumo ao oeste chegaria ao mesmo ponto, acreditava Colombo.
Cientistas, reis e navegadores podiam divergir sobre o caminho para chegar ao outro lado do mundo. Mas todos concordavam que ali havia ouro, prata e produtos igualmente valiosos: as especiarias.
O termo identificava uma gama de produtos exóticos. Canela, cássia, cravo-da-índia, massis, mirra, noz moscada, olíbano[2], pimenta do reino. O comércio de especiarias era tão arraigado na cultura árabe que até Maomé comerciou mirra e olíbano, em Meca. Para manter seu monopólio, os árabes escondiam a origem dos produtos, dizendo que vinham da África. Mas em 1453, Constantinopla foi tomada pelos turcos e a rota terrestre foi cortada, obrigando os europeus a buscarem alternativas.
Portugal saiu na frente. No verão de 1499, as caravelas de Vasco da Gama aportaram em Lisboa, trazendo em seus porões os primeiros sacos de pimenta, diretamente carregados na Índia em navios europeus.
Um negócio da China – ou das Índias. O cravo comprado a dois ducados nas Molucas alcançava 14 ducados na Malásia, 50 em Calicut e 213 em Londres. A pimenta saía a três cruzados o quintal (50,4 kg) no porto de origem; era vendida a 17 cruzados no Tejo e chegava a 33 cruzados no atacado de Lisboa. E se negociava muita pimenta em Portugal na época: 40.000 quintais por ano, o equivalente a duas mil toneladas.
Tais números ajudam a entender porque, nas Capitulações de Santa Fé, os reis católicos asseguraram a Colombo o título de almirante, o mais alto cargo da nobreza castelhana, com validade em todas as ilhas e terras “que por sua mão e indústria se descubram ou ganhem.” Ele obteve ainda o posto de vice-rei e governador-geral de todas as terras que se descobrissem, além de um décimo das riquezas e igual parcela dos benefícios do comércio nos limites do almirantado. Dias mais tarde, uma mercê real estendeu vantagens e títulos seus descendentes. Privilégios condicionados, claro, ao sucesso da empresa que algum tempo antes uma junta de doutores reunidos na Universidade de Salamanca tinha vaticinado como uma impossibilidade.
Títulos e vantagens hipotéticas era uma coisa; desembolso efetivo, outra bem diferente. Fernando e Isabel não abriram as burras imperiais para bancar a aventura e é lenda a história de que a rainha teria vendido ou penhorado suas jóias para financiar o sonho do navegador.
O que os reis fizeram foi colocar à disposição de Colombo duas caravelas que prestavam serviço compulsório à coroa por desrespeitarem o tratado de Alcobaças. O esforço para conseguir dinheiro e homens coube mesmo àquele genovês obstinado.
Esforço recompensado no dia 3 de agosto de 1492, quando deixou o porto de Palos de la Frontera (Huelvas, nos dias de hoje) no comando da nau Santa Maria, seguida pelas caravelas, Pinta e Niña.
Oito meses depois, em Barcelona, uma platéia extasiada acompanhou a vibrante narrativa do navegador ao casal real. O balanço da aventura veio acompanhado por provas concretas das maravilhas de além mar: homens cor de cobre, madeiras coloridas, aves jamais vistas e jóias impressionantes.
Mas o rei de Portugal não estava disposto a aceitar que as terras descobertas fossem apropriadas pelos espanhóis. Em busca de uma mediação favorável, estes apelaram a Rodrigo de Borja, advogado de formação, nascido perto de Valência. Um dos homens mais ricos da Europa, com várias amantes e diveross filhos ilegítimos, bastardos, ele se transformara em papa com o apoio de Fernando e Isabel.
Em cinco meses, Alexandre VI produziu cinco bulas sobre a questão (anteriormente, outro papa privilegiara os portugueses). A mais famosa reconhecia a fé e o zelo apostólico do casal e lhes concedia o direito não só às terras já descobertas como as que ainda seriam encontradas, desde que evangelizassem seus habitantes.
A divisão do mundo se daria a partir de uma linha imaginária que ia do Pólo Norte ao Pólo Sul, cem léguas a oeste do arquipélago de Cabo Verde, no Atlântico, perto do litoral africano, partilhando os mares conhecidos e os nunca dantes navegados entre os dois países. Os espanhóis ficavam com as terras a oeste dessa linha e os portugueses, com o que houvesse a leste.
Os portugueses desprezaram a bula e foram buscar remédio na negociação direta. O resultado foi o tratado de Tordesilhas, marco histórico da moderna diplomacia. Mas havia um problema. E que problema: como localizar a linha imaginária, num mundo onde os cosmólogos não sabiam calcular a longitude?
Naquele início do século XVI, a cosmologia não havia sequer estabelecido um consenso sobre o formato do planeta. Os cosmólogos eram intelectuais prestigiados, ocupando cátedras nas universidades mais importantes, mas misturavam ciência com misticismo. Baseados em cálculos feitos pelos gregos do tempo de Ptolomeu, eles simplesmente ignoravam a existência do oceano Pacífico, por exemplo. As cartas náuticas eram feitas pelos navegadores, a partir de observações in loco e cobriam portos e litorais.
Por tudo isso, o traço estabelecido em Tordesilhas variava de geógrafo para geógrafo e ao sabor dos interesses reais, mas de todo modo, o naco português incluía o litoral brasileiro, cabendo à Espanha a costa sul-americana do Pacífico e o que viria a ser a província do Rio da Prata.
O monopólio de Colombo durou pouco. A morte da rainha, que era quem o apoiava de fato, coincidiu com a descoberta de novas terras, deixando claro que havia mais do que um punhado de ilhas por ali (Colombo morreu certo de que tinha chegado às Índias, mas foi o último a crer nisso). Embora capitulação inicial desse a ele o governo de tudo o que fosse descoberto na América, a coroa percebeu que se o almirante governasse tudo aquilo poderia se tornar mais poderoso que os reis da Espanha.
Além disso, havia outras nações de olho na América... Se toda a exploração fosse concedida a apenas uma pessoa, seria mais difícil e mais caro controlar devidamente as terras descobertas, cujos dirigentes deveriam obediência e teriam de recorrer sempre ao almirante. Por fim, sem o monopólio seria mais fácil atrair novos capitais para a conquista e colonização.
[1] O Tratado das Alcáçovas (também denominado como Tratado das Alcáçovas-Toledo, por haver sido ratificado por Castela em Toledo, foi assinado naquela vila alentejana em 4 de setembro de 1479, colocando um ponto final na guerra de sucessão de Castela. O acordo reconhecia o direito de Portugal sobre a ilha da Madeira, os Açores, Cabo Verde e a costa da Guiné. Para Castela, ficavam as ilhas Canárias, sob a condição de renunciar à navegação ao sul do cabo Bojador.
[2] Segundo o Evangelho de São Mateus, os três presentes ofertados pelos reis magos à Jesus foram ouro, mirra e olíbano. Também conhecido como franquincenso, essa resina aromática, muito usada na perfumaria e fabricação de incensos, é obtida de árvores africanas e asiáticas do gênero Boswellia.
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