Os espanhóis não encontravam uma passagem para o Pacífico, até que no final de 1517, Fernão de Magalhães, um experimentado guerreiro e navegador e o renomado astrônomo Ruy Faleiro, trocaram Portugal pela Espanha e apresentaram um projeto tão ou mais ousado do que o de Colombo: contornar o continente americano e navegar pelo Pacífico até chegar às Molucas, a tão sonhada terra das especiarias, que a dupla afirmava estar na área reservada à Castela, sem tocar uma só vez em território português. Para reforçar seus argumentos, Magalhães exibiu um escravo que teria nascido nas tais ilhas e uma nativa de Sumatra, capaz de se expressar em diversos idiomas estranhos. Mas seu trunfo maior eram cartas em que seu conterrâneo Francisco Serrão descrevia a região, convidando-o a visitá-lo:
Encontrei aqui um novo mundo, mais rico e maior que o de Vasco da Gama. Venha me ver e experimente por si mesmo as delícias que me cercam.
Era tudo o que os oficiais da Casa da Contratação e os conselheiros flamencos de Carlos I queriam ouvir. Um cronista da época (Peter Martyr) resumiu o pensamento do grupo:
Se o negócio tiver um resultado favorável, tomaremos dos orientais e do rei de Portugal o comércio das especiarias e pedras preciosas.
Em março de 1518, o imperador ofereceu à dupla Faleiros-Magalhães m contrato “referente à descoberta das ilhas das Especiarias”. Um ano depois, eles receberam 74 instruções reais sobre a viagem. A primeira regra afirmava que a "principal cosa que vos mandamos y encargamos" era que eles não tocassem nem descobrissem terra alguma dentro da jurisdição portuguesa. O texto descia a minúcias, como a precaução quanto à sobrecarga, a proibição do jogo de cartas a bordo ou o ponto onde deveriam revelar o destino final da frota a pilotos e mestres. Outra recomendação pretendia guiar a cautela dos navegadores:
Porque a nuestro servicio cumple que vuestras personas no se pongan en tierra de que podreis recibir dardo, vos mandamos que no salgais a tierra a hacer ningund concierto, sino enviad a alguno de los oficiales, o a la otra persona que vierdes que mejor lo podra hacer; e seyendo caso que el rey o reyes con que hicierdes paz o asiento, no lo quiera conceder sino con vuestras personas mismas, en tal caso me parece bien que tomando rehenes buenos, uno de vosotros podra salir en tierra a tomar asiento con el rey, y en señal de paz e seguridad della le direis como tenemos por costumbre mandar poner un patrón de nuestras armas en la tierra, en señal de seguridad, e en cuanto por el e por los suyos fuere guardado el dicho patrón.[1]
Em 20 de setembro de 1519, cinco naus levando 265 homens de diferentes nacionalidades deixaram o porto de Sanlúcar, comandados por Magalhães - Faleiro acabou substituído na última hora, por razões de saúde. A expedição custara 8,7 milhões de maravedis, sendo que a parte de Carlos I (6,4 milhões) foi financiada por um velho amigo de Magalhães: Cristovão de Haro, que trocara Lisboa por Sevilha depois de uma ríspida discussão com d. Manuel trocara Lisboa por Sevilha. Ou seja: havia dinheiro de Jakob Fugger no mais ambicioso projeto de exploração do mar oceano.
O português superou mar bravio, motim, fome; descobriu ilhas desertas e habitadas, celebrou a primeira missa nas Filipinas e foi muito bem recebido por dois reis. Para agradecer a hospitalidade do segundo, resolveu dar uma lição na tribo de uma ilha próxima, que se recusava a aderir ao catolicismo. Contrariando a instrução real, desembarcou na ilha de Mactan com 50 homens, certo de que arcabuzes, alabardas e armaduras seriam capazes de dobrar a resistência do chefe Lapu Lapu da ilha de Mactan diante do cristianismo. Na praia, 1.500 indígenas os esperavam. Ferido na perna por uma flecha envenenada, ordenou a retirada. Tarde demais. Morreu minutos depois com a água pelas canelas, acompanhado à distância pelos que tinham ficado a bordo.
Em 8 de novembro de 1521, as duas naus restantes chegaram às Molucas, onde conseguiram uma respeitável quantidade de cravo, antes de seguirem em rumos distintos. Depois de cruzar o cabo da Boa Esperança Juan Sebastian Elcanho e 18 homens a bordo da Victoria, chegaram a Sanlúcar de Barrameda. Tinham dado a volta ao mundo.
O feito não colocou um ponto final na disputa pelas Molucas. Espanhóis e portugueses continuaram discutindo o local exato por onde passaria a linha imaginária de Tordesilhas, o que exigia complicados cálculos de longitude, sobre os quais não havia consenso.
Em 1526, outra expedição financiada pela coroa espanhola chegou às Molucas e lá encontrou os portugueses. Foram seis anos de escaramuças, batalhas e pendengas diplomáticas, até Carlos V mudar de estratégia, vendendo as ilhas para os portugueses por 350 mil ducados. [2] O negócio partia do princípio que aquilo era território espanhol – o que mais tarde ficou comprovado ser uma inverdade.
[1] Rev. estud. hist.-juríd. n.22 Valparaíso, 2000.
[2] As Molucas, na atual Indonésia, foram visitadas por Fernão de Magalhães, português a serviço da coroa espanhola em 1520. Não houve acordo sobre sua localização, se na parte lusa ou hispânica da repartição feita em Tordesilhas. Os espanhóis as ocuparam militarmente. Depois de uma década de escaramuças, D. João III e Carlos V cancelaram as viagens, Astrônomos, pilotos e cientistas dos dois lados não chegaram a um acordo, até o Tratado de Saragoça em que foi amplado um meridiano, que colocava as Molucas no campo portuguès, pagando por isso. A venda poderia ser desfeita com a devolução do dinheiro, o que nunca ocorreu.
- Enviar para amigo
- Versão para impressão
- Se logue ou se registre para poder enviar comentários
