Pertencente a uma das famílias mais nobres da Espanha, dom Pedro de Mendoza fora pagem de Carlos V na Inglaterra e participara do saque de Roma em 1527, junto com as tropas imperiais. Impressionado pela prata do Peru, não confiou só no currículo e usou a prima María de Mendoza, mulher do todo-poderoso secretário real Francisco de los Cobos para conseguir o contrato com o imperador. Prova de que algo mudara na elite espanhola, que finalmente encontrava uma perspectiva de riqueza na conquista das Índias.
Os grandes ocupavam cargos no Consejo de Índias e na Casa de la Contratación e podiam até comerciar com o Novo Mundo, mas não se engajavam diretamente na conquista - Colombo e Magalhães eram estrangeiros; os irmãos Pinzón, abastados, mas de família de marinheiros; Vasco Núñez de Balboa partiu para as Índias fugindo de credores; Hernán Cortés era um nobre de segunda linha; Ponce de León, um ex-soldado; Francisco Pizarro, um bastardo recolhido na escadaria da igreja de Trujillo.
Nem mesmo as notícias sobre as descobertas e as aventuras dos exploradores entusiasmavam os grandes. Os primeiros relatos sobre as expedições foram traduzidos em várias línguas da Europa ocidental, enquanto o único texto sobre o assunto disponível na Espanha continuava a ser a carta de Colombo. Publicada em italiano, inglês, francês, alemão e flamengo, a obra só saiu em castelhano em 1892.
Os espanhóis sequer compreendiam o que realmente se passava nas Índias, que viam como uma espécie de extensão de suas aldeias. Um texto de Oviedo, assinalado pelo jornalista argentino Ricardo Herren, em La outra cara de la conquista – Viaje a las Indias maravillosas, demonstra bem o tamanho da ignorância coletiva em relação ao Novo Mundo:
Creen que las Indias serán como um reino de Portugal o de Navarra, o a lo menos uma cosa recogida y breve terreno donde todos los que acá están saben los unos de los otros y se pueden comunicar com la facilidad que desde Córdoba a Granada o Sevilla o, cuando más lejos, desde Castilla o Viscaya; y de aqui resultan uns sobrescriptos de cartas que por acá vienen de las ignorantes madres y mujeres que buscan y escriben a sus hijos y maridos y otros a sus parientes y dicen así: “ A mi deseado hijo Pedro Rodríguez, em las Indias” que es como se dijese “ A mi hijo Mahoma, África” o “ A Juan Martínez, em Europa”.
Currículo e lobby não foram suficientes para dar a Mendoza um contrato diferente das outras capitulações. A dele, dizia, com todas as letras, que as terras eram cedidas aos exploradores “sin que en ningún tiempo seamos obligados a vos pagar ni satisffacer los gastos que en ello hizieredes”. Ou seja, a expedição, a conquista e a colonização seriam financiadas pelo interessado, que jamais poderia pedir o ressarcimento das despesas. Em troca, recebia o direito de explorar as riquezas da terra, pagando um quinto ao imperador e mais quatro mil ducados por ano - metade salário, metade ajuda de custos.
O risco estava implícito: como colonizador, sem encontrar ouro, prata ou especiarias, levaria muito tempo até recuperar o investimento inicial. Como uma espécie de bônus, Mendoza se tornava adelantado.[1] Enfrentando a sífilis, então uma doença incurável, Mendoza demorou a partir.
Em 24 de agosto de 1535, quando seus onze navios içavam suas velas em Sanlúcar (outros três se juntariam ao comboio nas ilhas Canárias), começava o mais ambicioso projeto de exploração das terras do Mar Oceano desenvolvido até então.
[1] O termo vinha do árabe almuqaddám ou almocadén em castelhano e na Baixa Idade Média identificava o oficial da coroa castelhanha com competências judiciais e governativas. Na corte, esse funcionário julgava no lugar do rei e era chamado de sobrejuiz, exprimindo sua primazia sobre instâncias inferiores da justiça. Nos territórios em que se dava a luta contra os muçulmanos, pela reconquista, o adelantado de frontera era um misto de chefe militar e representante do poder imperial. a A partir de 1492, quando a rendição de Granada selou o fim da reconquista, essa segunda modalidade foi transplantada para os territórios indianos (para a Espanha, o além mar eram as Índias). Juan Ponce de León fue el primero a quien la Corona concedió, en 1512 el título de adelantado como recompensa por su proyectada exploración de la tierra de Bimini (región de La Florida en EE. UU.).
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