Quando Cristovão Colombo conseguiu a adesão dos reis católicos para a tese que vinha apresentando sem sucesso a várias cortes européias durante oito anos - a de que era possível alcançar as terras descritas por Marco Pólo em seu Livro das Coisas Maravilhosas navegando rumo ao oeste – havia uma razão muito prática estimulando a simpatia da coroa espanhola: o tratado de Alcovaças. Por esse acordo, assinado em 1479, a fronteira marítima para Castela era o cabo Bojador, em frente ao deserto do Saara. Dali em diante, costeando a África, só os portugueses poderiam se aventurar. Mas se a terra fosse redonda, como assegurava aquele persistente genovês, seria possível chegar ao mesmo ponto, seguindo o rumo oeste.

De todo modo, o apoio real não se traduziu em dinheiro,[1] mas em títulos de duvidosa serventia. Colombo se tornaria de vice-rei, governador-geral e almirante, com mando sobre as ilhas e terras “que por sua mão e indústria se descubram ou ganhem”, com direito a receber um décimo das riquezas e igual parcela dos benefícios do comércio nos limites do almirantado.[2] Dias mais tarde, uma mercê real estendeu tais privilégios a todos os seus descendentes. No entanto, todas as vantagens eram condicionadas ao sucesso da empreitada que fora considerada uma verdadeira impossibilidade por uma junta de doutores reunidos na Universidade de Salamanca.

No dia 3 de agosto de 1492, Colombo deixou o porto de Palos de la Frontera (Huelvas, nos dias de hoje) no comando da nau Santa Maria, seguida pelas caravelas Pinta e Niña. Oito meses depois, em Barcelona, uma platéia extasiada acompanhou a vibrante narrativa do navegador ao casal real. O balanço da aventura veio acompanhado por provas concretas das maravilhas de além-mar: homens cor de cobre, madeiras coloridas, aves jamais vistas, jóias impressionantes.

Os viajantes não traziam ouro, prata ou especiarias – apenas um tipo de pimenta ainda desconhecido na Europa. Ao contrário do que imaginava Colombo, as Índias ficavam muito longe dali. Mas sua façanha mudou os rumos da história.

Sete anos após a chegada de Colombo, a caravela de Vasco da Gama aportou em Lisboa, trazendo em seus porões, desde a Índia, a primeira prova de que a terra das especiarias não era a África, como alardeavam os árabes.

Vasco da Gama fez um negócio da China – ou das Índias. O cravo comprado a dois ducados nas Molucas alcançava 14 ducados na Malásia, 50 em Calicut e 213 em Londres. A pimenta que saía a três cruzados o quintal (50,4 kg) no porto de origem era vendida a 17 cruzados no Tejo e chegava a 33 cruzados no atacado de Lisboa. Logo os portugueses passaram a negociar verdadeiras montanhas de pimenta: 40.000 quintais por ano, o equivalente a duas mil toneladas.

A Espanha reagiu recorrendo ao papa que os reis católicos tinham ajudado a eleger. Em tempo recorde, ele editou várias bulas arbitrando a divisão dos mares nunca dantes navegados entre Madrid e Lisboa. Por uma linha imaginária que ia do Pólo Norte ao Pólo Sul, cem léguas a oeste do arquipélago de Cabo Verde, no Atlântico, perto do litoral africano, separou os dois vizinhos e rivais: os espanhóis ficavam com as terras a oeste dessa linha e os portugueses com o que houvesse a leste. 

A bula papal contestada por Lisboa levou os dois países a negociar o tratado de Tordesilhas, um marco histórico da moderna diplomacia. O acordo mantinha o princípio, mas mudava o eixo da repartição. Mas restava um problema de dimensões oceânicas: como fixar a tal linha imaginária, num mundo que ainda não sabia calcular latitudes e longitudes com precisão?

Naquele início do século XVI, os cosmólogos eram prestigiados e ocupavam cátedras nas universidades mais importantes, mas continuavam a misturar ciência com misticismo. Divergindo inclusive sobre o formato do planeta, seguiam utilizando cálculos feitos pelos contemporâneos de Ptolomeu e ignoravam a existência do oceano Pacífico, por exemplo. Os navegadores valiam-se de cartas náuticas que cobriam portos e litorais, a partir de observações in loco. Nesse cenário a linha de Tordesilhas oscilava ao sabor de concepções e interesses.

Acima das ineficientes tentativas de regulamentar a navegação – e de eventuais divergências “científicas” havia um fator mais relevante: as especiarias.

Mas a Espanha se deu conta de que o desconhecido entregue a Colombo era grande demais para ficar sob o controle de um só homem – e seus descendentes. E cancelou tanto o monopólio como a hereditariedade de seus títulos, gerando um longo processo judicial sobre o qual se falará adiante.

Na corrida náutica das grandes navegações, a ousadia era crescente. Mas a aventura máxima foi protagonizada pelo português Fernão de Magalhães, a quem a Espanha deu sinal verde para tentar o que outros tinham buscado sem sucesso: contornar o continente americano e navegar pelo Pacífico até chegar às Molucas, a terra das especiarias.

Em 1519, cinco naus e 265 homens de diferentes nacionalidades em cinco naus partiram com esse objetivo de Sanlúcar de Barrameda. Enfrentaram ondas terríveis, alguns motins, muita fome, mas finalmente entraram no Pacífico.

A autoconfiança, vital nos momentos mais críticos da viagem, acabou cobrando seu preço. Convencido de que a catequese se apoiava em arcabuzes, alabardas[3] e armaduras, Fernão de Magalhães desceu de seu barco, o Victoria, na ilha de Mactan, comandando apenas 50 homens, disposto a dobrar a resistência de um chefe local diante do cristianismo. Na praia, 1.500 indígenas tinham outra idéia. Ferido na perna por uma flecha envenenada, ordenou a retirada. Tarde demais. Morreu minutos depois com água pelas canelas, acompanhado à distância pelos que tinham ficado a bordo.

Em 8 de novembro de 1521, as duas naus restantes chegaram às Molucas, onde conseguiram uma respeitável quantidade de cravo. Meses mais tarde, o Victoria aportou em Sanlúcar. Seus 18 ocupantes tinham dado a volta ao mundo.

O feito dos companheiros de Magalhães não assegurou o domínio espanhol sobre as Molucas: em 1526, nova expedição financiada pela coroa espanhola chegou às ilhas e lá encontrou seus maiores rivais. Foram seis anos de escaramuças, batalhas e pendengas diplomáticas, até Carlos V mudar de estratégia, vendendo as ilhas para os portugueses por 350 mil ducados.[4] À essa altura, o imperador já sabia o potencial da América. Mas nas primeiras décadas da conquista, o que movia os navegadores não eram informações precisas, mas um misto de lendas e boatos. Foi assim com a província do rio da Prata também.

Em meados do século XVI, os contemporâneos dos ousados e visionários navegadores da época sequer compreendiam o que se passava nas Índias, que viam como uma espécie de extensão de suas aldeias. Um texto de Oviedo, assinalado pelo jornalista argentino Ricardo Herren, em La outra cara de la conquista – Viaje a las Indias maravillosas,  demonstra que não era só Colombo que ignorava o tamanho e a exata  localização do Novo Mundo:

 

Creen que las Indias serán como um reino de Portugal o de Navarra, o a lo menos uma cosa recogida y breve terreno donde todos los que acá están saben los unos de los otros y se pueden comunicar com la facilidad que desde Córdoba a Granada o Sevilla o, cuando más lejos, desde Castilla o Viscaya; y de aqui resultan uns sobrescriptos de cartas que por acá vienen de las ignorantes madres y mujeres que buscan y escriben a sus hijos y maridos y otros a sus parientes y dicen así: “ A mi deseado hijo Pedro Rodríguez, em las Indias” que es como se dijese “ A mi hijo Mahoma, África” o “ A Juan Martínez, em Europa”.

 



[1] É lenda a história de que a rainha tenha vendido ou penhorado suas jóias para financiar o sonho do navegador: Fernando e Isabel só colocaram à disposição do navegador duas caravelas que prestavam serviço compulsório à coroa. E o esforço para conseguir dinheiro e homens coube mesmo àquele genovês obstinado.

[2] Capitulações de Santa Fé

[3] A alabarda é uma antiga arma composta por uma longa haste. A haste é rematada por uma peça pontiaguda, de ferro, que por sua vez é atravessada por uma lâmina em forma de meia-lua (similar à de um machado). É considerada a arma de infantaria mais eficaz contra invasores em fortificações e muralhas. Era por excelência a arma usada pelos guardas de castelos e palácios e ainda hoje aparece como o padrão em unidades militares históricas, mantidas para fins decorativos, com suas fardas e armaduras de época. Graças à sua lâmina em meia-lua, nos combates corpo-a-corpo a alabarda era usada como machado. Já a peça pontiaguda permitia o uso da alabarda como lança, o que era muito utilizado nos combates contra outras unidades de infantaria, principalmente as que escalavam muralhas usando-se de escadas.

[4] O negócio partia do princípio que aquilo era território espanhol – o que mais tarde ficou comprovado ser uma inverdade. As Molucas, na atual Indonésia, foram visitadas por Fernão de Magalhães, português a serviço da coroa espanhola em 1520. Não houve acordo sobre sua localização, se na parte lusa ou hispânica da repartição feita em Tordesilhas. Os espanhóis as ocuparam militarmente. Depois de uma década de escaramuças, D. João III e Carlos V cancelaram as viagens, Astrônomos, pilotos e cientistas dos dois lados não chegaram a um acordo, até o Tratado de Saragoça em que foi amplado um meridiano, que colocava as Molucas no campo portuguès, pagando por isso. A venda poderia ser desfeita com a devolução do dinheiro, o que nunca ocorreu.