Na madrugada de 24 de fevereiro de 1500, a princesa Joana trocou a festa que rolava no castelo de Ten Walle, em Gante[1], próximo a Bruxelas,por um local mais adequado ao ritual anunciado pelas contrações.Às três e meia da manhã, ouviu-se um choro de criança. Logo depois, uma fogueira podia ser vista em Amberes, a 90 quilômetros de distância. Sobre a torre mais alta de Gante, as labaredas celebravam a chegada do primeiro neto do rei Maximiliano I da Áustria.
Se o pequeno Carlos sobrevivesse às doenças da infância, herdaria de seu pai o ducado da Borgonha – a maior parte dos Países Baixos e parte da Borgonha – e do outro lado da Europa, os territórios de seu avô, principalmente o arquiducado que correspondia à Áustria de hoje. Mas havia chances mínimas de que viesse a governar o reino onde nascera sua mãe, que era apenas a quarta filha dos reis católicos Fernando e Isabel. Tragédias e manobras contornaram a genealogia, transformando Carlos de Gante no homem mais poderoso do planeta. Tudo começou com a sucessão de infortúnios na família de sua mãe, que em menos de sete anos, perdeu o único irmão, a irmã mais velha e o sobrinho.
Acalentando o sonho da unificação espanhola, a avó de Carlos relegou o marido à condição de regente de Castela (ele continuou sendo rei de Aragão) e nomeou Joana como herdeira. A morte de Isabel, em 1504, transformou o menino que nem sabia ler em príncipe da Espanha.
Carlos nasceu rico e poderoso, mas uma impressionante conjugação de infortúnios e manobras ao comando do maior império da época. Nascido em Gante, neto do imperador Maximiliano da Áustria (por parte de pai) e dos reis católicos Fernando de Aragão e Isabel de Castela, os dois reinos em que se dividia a Espanha, ele estava longe do poder tinha poucas chances de suceder qualquer um de seus parentes. Foi criado pela tia Margarida da Áustria e teve vários tutores, entre os quais o tio de Álvar Núñez, Luiz Cabeza de Vaca e o bispo Adriano de Utrech. Homens que buscaram dar uma base cultural sólida ao garoto meio franzino, que preferia a caça e os torneios marciais aos livros. Carlos escreveu muito, mas jamais se tornou um poliglota. Uma frase atribuída a ele mais tarde, sintetiza sua duvidosa intimidade com os idiomas mais populares da época:
Falo latim com Deus, italiano com os músicos, espanhol com as damas, francês na corte, alemão com os lacaios e inglês com meus cavalos.
Erasmo de Roterdã, o maior filósofo do norte da Europa, produziu sob encomenda um ensaio que deveria ser o guia de ação de Carlos. Se ele leu o texto em latim, não se sabe. De todo modo, não levou muito a sério as recomendações de fugir da guerra e praticar uma monarquia limitada, controlada e temperada pela aristocracia e pela democracia.
Tinha 15 anos quando conquistou a maioridade e o título de senhor dos Países Baixos. Com 40% de seus quase três milhões de habitantes vivendo nas cidades, os Países Baixos eram a região mais urbanizada do planeta. Organizados em corporações de comércio, seus habitantes produziam roupas, artigos manufaturados, arenque salgado. Situados no entroncamento de várias rotas mercantis, negociavam intensamente com meio mundo. Ali também estavam grandes banqueiros, como os Fugger, os Welser e os Baumgartner.
As dezessete províncias reconheciam o poder do imperador, mas relutavam em pagar os impostos. O desconforto resultaria num conflito aberto, a partir da declaração de independência em 1579.
Carlos não ficou muito por lá. Dois anos mais tarde, seu pai, Felipe, conhecido como o Belo, jogou uma fatal partida de tênis sob um sol inclemente e Carlos virou duque da Borgonha. Grávida pela quarta vez, sua mãe, Joana caiu em depressão (já apresentava sinais de esquizofrenia), foi para a Espanha e se encerrou no castelo de Tordesilhas.
Coube a Carlos assumir o poder na Espanha, o estado mais eficiente e autoritário da Europa cujo poder se apoiava numa burocracia poderosa e em um férreo controle sobre a hierarquia da igreja, estabelecida no tempo dos reis católicos que tinham até mesmo estabelecido uma versão própria da inquisição (Em apenas 19 anos, Torquemada mandara queimar 8.800 pagãos e hereges).
Não era um mau negócio, embora os Países Baixos fossem a região mais urbanizada do planeta: 40 por cento de seus quase três milhões de habitantes viviam em cidades, produzindo roupas, artigos manufaturados, arenque salgado e negociando intensamente com meio mundo, com grande peso financeiro (ali estavam os grandes banqueiros) e importância estratégica, por estarem em condições de controlar grandes rotas mercantis. Mas as dezessete províncias relutavam em pagar os impostos, ainda que reconhecessem o poder do príncipe; o governo era exercido por conselhos das cidades e a defesa cabia a milícias.
A Espanha era muito diferente. Castela continuava baseada nas regras medievais do senhorio, mas os avós de Carlos tinham transformado-a no estado mais eficiente e autoritário da Europa. A coroa continuava absoluta em teoria. O governo era exercido a partir do Real Conselho, ampliado e reestruturado em 1480. O poder se sustentava também no conhecimento dos letrados, advogados que formavam o cerne da burocracia estatal. Havia um eficiente controle financeiro e algum freio à corrupção. E na prática, os avós de Carlos, Fernando e Isabel, já mandavam mais que o papa sobre os bispos da região.
Por essas e outras razões, Carlos de Gante virou Carlos I da Espanha. Em 17 de setembro de 1517, aos 17 anos, pôs pela primeira vez os pés na península ibérica. Chegada atribulada: uma tormenta desviou o barco em que viajava com a irmã Leonor e todos desembarcaram no pequeno porto pesqueiro de Tazones de Villaviciosa nas Astúrias, que evidentemente, não estava preparado para receber o novo rei.
Dois anos mais tarde, morreu seu avô, Maximiliano I, sem conseguir colocar sobre a jovem cabeça do neto a coroa do Sacro Império Romano, que estava com os Habsburgos desde a eleição de Frederico III em 1440, mas que o papa se recusara a entregar-lhe formalmente.
O papa Leão X, disposto a reduzir o poder flamengo-espanhol opôs-se às pretensões de Carlos, dando força às aspirações de Francisco I da França que também ambicionava o posto.
Carlos iniciou uma intensa batalha diplomática, comandada por sua tia Margarita de Saboya que assumira o governo dos Países Baixos e comprou os votos dos sete príncipes eleitores, um comitê de notáveis que desde 1354, escolhia quem usaria a coroa. A adesão do septeto exigiu 850.000 florins de ouro, emprestados por banqueiros, ds quais 543.000 fornecidos por Jakob Fugger.
O papa afinal cedeu e com menos de 20 anos, em 22 de junho de 1519, na Igreja de São Bartolomeu, em Frankfurt, o arcebisbo de Mogúncia o nomeou imperador.
A coroação oficial como rei dos romanos e imperador eleito aconteceu em Aquisgran, em 23 de outubro de 1520.
De estatura mediana, bem proporcionado, Carlos era pálido e tinha a mandíbula inferior tão pronunciada que falava com certa dificuldade e custava a se fazer entender. Extremamente religioso, não tinha vícios. Seus maiores prazeres eram os assuntos de estado, a caça e a comida. Gostava da solidão, falava pouco e só decidia depois de ponderar o assunto.
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