Em 1594, Alonso de Barzana, um dos primeiros jesuítas a chegar ao Prata se entusiasmou com uma característica dos guaranis:

É toda essa nação muito inclinada à religião, verdadeira ou falsa. Conhecem a imortalidade da alma e teme muito as anguerá, que são as almas saídas dos corpos e dizem que andam espantando e fzendo o mal. Tem grandíssimo amor e obediência aos padres, se os vêm como bom exemplo.

Ao mesmo tempo, o jesuíta Antonio Ruiz de Montoya (1584-1651) assinalou que muitas crenças estavam mais próximas do charlatanismo e relativizou o interesse dos índios pelo sagrado, ressalvando que eles acreditavam na imortalidade da alma:

(...) as superstições dos magos se baseiam em advinhações pelos cantos das aves, chupando as partes lesadas dos enfermos e tirando da boca as coisas que leva ocultas, mostrando que ele, com sua virtude, tirou o que lhe causava a doença, como uma espinha de peixe, um carvão ou coisa semelhante. (…) em matéria de religião são totalmente brutais e se diferenciam dos outros bárbaros, pois não há nação, por inculta e bárbara que seja que não adore alguma deidade; mas estes não dão culto a coisa nenhuma, visível ou invisível, nem ao demônio, ainda que o temam. (…) Não tem, pois, nem adoram, outro deus que a seu ventre, nem entendem outra coisa, salvo passar uma vida boa, a melhor que puderem.

Os guaranis acreditavam num pai sagrado e primordial Ñamandú, criador de tudo e origem da palavra, preservada por profetas. Uma das histórias repetidas falava da Terra sem mal, mito que determinou migrações enormes e massivas. E que teria levado à construção e manutenção do Caminho do Peabiru, utilizado por Aleixo Garcia e Cabeza de Vaca para cruzar o território brasileiro rumo à Serra de Prata e à Assunção.