Não há dados precisos sobre as tribos que habitavam a região percorrida por Cabeza de Vaca. Ele próprio, que na primeira viagem fora tão detalhista, deixou poucas referências sobre os povos e seus costumes ao longo dos Comentários, de autoria de Pero Hernández. O secretário particular e ghost writer de Cabeza de Vaca definiu desse modo os guaranis:

 

(...) lavradores que cultivam o milho e a mandioca duas vezes por ano, criam galinhas e patos como nós, na Espanha, possuem papagaios, ocupam um vasto território e falam uma só língua. Mas também comem carne humana, tanto a dos índios seus inimigos, quanto a dos cristãos ou de seus próprios companheiros de tribo. É gente muito amiga, mas também muito guerreira e vingativa.  

Os “orelhudos” que viviam no entorno de Porto dos Reis, centenas de quilômetros ao norte de Assunção, foram apresentados deste modo nos Comentários:

(...) índios agricultores e criadores de galinhas e patos, os quais eram criados para defendê-los dos inconvenientes e danos que causam os grilos, que comem e roem qualquer manta que vêem pela frente; esses grilos se criam nas palhas que cobrem as casas; para guardar sua roupa, os índios têm umas vasilhas grandes onde guardam mantas e couros e as tampam com tampas de barro, e assim protegem suas roupas; caem muitos grilos do teto das casas em busca do que roer, e os patos vêm correndo e comem todos; fazem isso duas ou três vezes por dia e é bonito ver como se amontoam; esses índios têm suas casas e vivem em lagoas, cercados por outras.

Muitos povos poderiam ser classificados como orelhudos. No Mato Grosso do Sul, até bem pouco tempo, os índios suiá ostentavam grandes discos de madeira redondos ou folhas ou espirais feitas de folha de palmeira enroladas e pintadas com barro branco, pendurados por uma fina camada de pele do lóbulo da orelha. Esses discos podiam ter mais que 8 cm de diâmetro. No início do século XX, as mulheres deixaram de perfurar as orelhas por influência do contato com os não indígenas e casamentos com grupos do Alto Xingu, que não usam discos auriculares. Não é impossível que os orelhudos de Porto dos Reis tenham sido seus ancestrais. Outra etnia, os Waurá, do Parque do Xingu - Mato Grosso, contam a história de Kamukuaká, espírito poderoso anterior à criação do mundo e dos homens.

Kamukuaká não tem pai nem mãe e por isso não tem umbigo. Certo dia ele decidiu furar suas orelhas e promoveu uma grande festa em sua aldeia. Com inveja de Kamukuaká, o sol, que morava num buraco nas pedras do rio Batovi, resolveu matá-lo. Lançou uma flecha em sua cabeça, mas Kamukuaká, desviou o rosto e a flecha furou-lhe uma orelha.

O sol atirou outra flecha. O espírito desviou a cabeça de novo e sua outra orelha foi furada. Os outros jovens que estavam na aldeia também furaram as próprias orelhas, e a festa acabou sem que o Sol fizesse mal a Kamukuaká. Ainda hoje, os jovens garotos Waurá participam de um rito de passagem onde têm suas orelhas furadas.

Pero Hernández também descreveu em detalhes um ritual de antropofagia, hábito que Cabeza de Vaca tentou reprimir. O relato deixa evidente que o hábito nada tinha a ver com a alimentação em si:

(...) um índio, que é considerado o mais valente de todos, pega uma espada de pau, que os índios chamam de macana, vai para uma praça onde faz o prisioneiro dançar por uma hora. Depois que ele dança, o índio chega e lhe dá um golpe no lombo com as duas mãos e outro na espinha para derrubá-lo e pode acontecer que, depois de seis golpes na cabeça, não consiga derrubá-lo; é impressionante como eles têm a cabeça dura, porque a espada de pau com que batem nele, é de madeira muito dura, pesada, negra e, se um homem segurar com as duas mãos pode derrubar um touro de um só golpe, mas só conseguem derrubar o prisioneiro depois de muitos golpes. No fim, quando o derrubam, os meninos chegam com suas machadinhas e dão vários golpes na cabeça até jorrar sangue e, enquanto estão golpeando, os índios lhes dizem aos gritos que sejam valentes, que aprendam e que tenham coragem para matar seus inimigos; que se lembrem que o que está ali matou um dos seus, que se vinguem, pois. Depois que o prisioneiro morre, quem deu o primeiro golpe fica com o nome do que morreu e dali em diante passa a ser chamado por este nome, como sinal de valentia. Em seguida, as velhas despedaçam o morto, cozinham os pedaços em suas panelas, repartem entre todos e comem como uma iguaria; depois, voltam aos prazeres das danças e da festa, que dura muitos dias e dizem que por suas mãos morreu o inimigo que matou seus parentes, que agora descansam e estão satisfeitos.

 

As pesquisas arqueológicas e antropológicas indicam que havia uma mistura relativamente heterogênea entre grupos étnicos, que se dividiam em dois grandes grupos: os habitantes mais antigos, caçadores-coletores; e os que haviam migrado mais recentemente da Amazônia, agricultores. O Chaco, que era a grande barreira natural entre a área ocupada pelos espanhóis, ao longo dos rios Paraná e Paraguai e a tão sonhada serra de prata, não era um bom local para a agricultura, por conta da inundação periódica. Por isso, ali ficavam os caçadores - coletores, enquanto os agricultores (de língua Tupi e Arawak) iam no máximo até as bordas do Chaco. Na região entre os rios Paraná (a oeste) e o Uruguai (a leste), além dos povos agricultores e coletores existentes no Chaco, também havia povos que misturavam as duas formas de subsistência e mostravam ter influências mistas da Amazônia, do Chaco e dos pampas.

Na área correspondente aos estados de Santa Catarina e Paraná, que a expedição teve de cruzar até chegar a Assunção, viviam tanto agricultores, sob influência dos guaranis e guaicurus, como outros, que tinham um modo de sobrevivência misto, como os xoklengs, caigangues e charruas.

Estudando os rituais funerários em sítios arqueológicos localizados nos municípios catarinenses de Campos Novos, Abdom Batista, Anita Garibaldi e Celso Ramos, o antropólogo Marco Aurélio Nadal De Masi, diretor do Laboratório de Antropologia e Arqueologia da Unisul Business School de Santa Catarina concluiu que a região era habitada por xoklengs, e não caigangues (que quer dizer “os que tem cabelo comprido”). Xokleng e caigangue são dois ramos dos gês, um dos grandes troncos lingüísticos indígenas brasileiros, ao lado dos tupis-guaranis. Os gês têm origem no centro-oeste brasileiro e plantavam milho. Os xoklengs cremavam seus mortos e colocavam as cinzas e objetos pessoais em cestos – diferentemente dos caigangues, que os enterravam. Na região do rio Canoas, os arqueólogos acharam áreas de roças, resíduos de fogueiras, centros cerimoniais e corpos cremados. E, com eles, copos, pratos e vasos de cerâmica típica dos gês.

A equipe de Nadal também encontrou indícios de cultivo de milho em torno de 2860 a.C,  o que permite inferir que já havia um sistema econômico sedentário. A teoria anterior partia do pressuposto de que os habitantes da região eram nômades, caçadores e coletores, sem domínio ou prática da agricultura. De todo modo, esses povos eram menos cordiais que os guaranis que habitavam parte da costa, incluindo a ilha de Santa Catarina. Ganharam o apelido de bugres e foram simplesmente dizimados durante a expansão da fronteira agrícola durante o século XIX pelos caçadores profissionais, os bugreiros. 

No Baixo Paraná, partes da região interfluvial e, mais ao sul, próximos ao Rio da Prata estavam os charruas viviam, muito semelhantes, tanto física quanto culturalmente, com os povos do Pampa e da Patagônia. Organizavam-se em grupos de 10 a 15 famílias, subordinadas a um líder, que em momentos de risco podia se unir a outros. Suas casas eram de pau a pique, cobertas com um teto removível de madeira. Tinham ótimas técnicas de caça e no século XVII se tornaram equestres, passando a caçar com lanças compridas.

Os índios que infernizaram a vida de Pedro de Mendoza e dos primeiros habitantes de Buenos Aires eram caçadores-coletores.  Os cronistas coloniais descreviam-nos como altos e vigorosos. Roger Barlow (1528), companheiro de Sebastião Caboto, definiu-os como caracarás dizendo que eram “(…) de cuerpo alto como alemanes” (os espanhóis não se destacavam pela estatura); o português Pero Lópes de Sousa (1531) definiu os beguás como “(…)grandes e robustos e parece que tem muita fuerza.” Ulrich Schmidl (1534), o soldado alemão que acompanhou Mendoza, menciona timbús, corondás e mocoretás afirmando que eram “(…)gentes grandes y garbosas de cuerpo”.
Em 1573,  Martín del Barco Centenera (1573), espantou-se com um índio gigantesco, que definiu em versos: “(…)el salvaje se estira y endereza/ y un escudo grandísimo ha embrazado/…/y el bastón que este bárbaro tenía,/servir de antena en nave bien podría”.

Beguás, chanas, timbús e corondás, culturalmente aparentados, ocupavam parte de as ilhas do delta e a costa de Buenos Aires e de Santa Fé, até onde hoje fica Córdoba. A descrição dos cronistas coincide com descobertas arqueológicas. Luis María Torres mediu 17 esqueletos masculinos e 2 femininos na região do delta e encontrou uma  estatura média de 1,69 m para os homens e 1,65 para as mulheres. Fernando Gaspary obteve l,67 m de média entre 37 esqueletos da ilha Los Marinos, em frente a Rosário. Sntiago Gatto calculou que um indivíduo masculino da região do delta do rio Tigre, em Buenos Aires tnha 1,85 m. Quase um gigante para os espanhóis da época de Cabeza de Vaca. 

Além da aparência e dos hábitos, o comportamento dos nativos também surpreendeu os conquistadores. Sánchez Ladrados (definir) ficou impressionado com aquela gente que olhava tudo e tudo perguntava. Em face de uma novidade, “prorrompem os homens com a expressão auú e ao mesmo tempo põem a mão estendida sobre a boca e dão pequenos golpes em si mesmo, como fazem as crianças quando se alegram. (...) O prisma os tirava do sério, quando viam pintados de cores as árvores e os objetos.”

Sucesso também fazia o imã, que pediam aos europeus para olhar mil vezes, encantados com a pedra que vivia e comia ferro. Contrariados em algum desejo, perspegavam no estrangeiro a expressão acami aquilegi, que queria dizer que o outro era mesquinho e nem um pouco liberal. Ao descreverem a si próprios valorizavam o passe: “quando nos falavam, todos eram capitães, descendentes de tais e de uma genealogia alcurnia) a mais sobressalente.”

Diego de Ocaña, um monje español que esteve na região no final do século Xvi, espantou-se com os hábitos do povo que chamou de calchaquies:

 

São muito valentes. Comem carne humana todas as vezes que a conseguem e são muito canibais. E os mortos, não os enterram, mas os comem; e não somente os que matam na guerra, mas seus próprios filhos quando morrem, dizendo que aqueles que pariram não devem ser enterrados, mas voltar a seus ventres.

 

Ocaña também se incomodou com o tipo de hospitalidade reinante entre os nativos:

 

(…) há outras nações tão bestiais em seus costumes que, por curiosidade, não se pode deixar de dizer(…).Uma, que se chamam a dos charruas, quando prendem a alguns espanhóis os levam a suas casas e estes índios são muito ferozes e valentes e lutam com umas bolas atadas numas cordas de nervos de guanacos e avestruz (...) A esses espanhóis que levam presos a suas casas, como os têm por gente que resistiu a eles, os tratam bem e não os matam, ao contrário, dão suas filhas para que durmam com eles e todas as que eles queiram, para que engravidem e tenham casta de gente valente; e quando algum espanhol não quer aceitar as índias que lhes dão, para não morrer naquele pecado mortal, sem confissão, lhes cospem na e os têm por gente vil e os fazem trabalhar nas pescas e caças. (…) Há também outras nações, de chanés e querandis, que tem por costume verem-se uns com os outros e passam em canoas de uma parte m chegar, saem para recebê-los e os levam a suas casas e lhes dão de comer. E na hora de dormir o dono da casa sai e lhe entrega a sua mulher ou alguma filha ou irmã com as quais dorme o hóspede todos os dias que ali está e o outro não volta para sua casa até que se vá o  hóspede, nem para dormir, nem para comer, de modo que o hóspede torna-se o senhor de toda a casa. E o mesmo fazem os do outro povo quando estes os visitam e lhes pagam na mesma moeda a hospedagem.