Algumas sociedades indígenas do rio da Prata no século XVI tinham o sistema de compadrio como um de seus fundamentos. Pelo casamento, os povos adquiriam mútuas obrigações sociais e econômicas. Entre os guaranis, o casamento não era um compromisso de mão dupla apenas, mas um acordo coletivo que incluía genros, sogros, cunhados etc. O casamento estabelecia as relações entre os cônjuges e os outros integrantes da tribo ou grupo, essencialmente um conjunto de parentes. Ao mesmo tempo, o casamento fundava uma unidade econômica: os maridos tinham obrigação de abrir roças para suas mulheres e de fornecer a caça; as mulheres controlavam totalmente a distribuição dos produtos, a partir do monopólio sobre a manipulação dos alimentos. O uso dos bens produzidos, por sua vez, estava subordinado ao tipo de ligação com os demais membros do grupo. O sogro, por exemplo, tinha direito a determinado pedaço da caça obtida pelo genro. No todo, o casamento era um sólido conjunto de obrigações mútuas, relativas à produção econômica e ao relacionamento social”.
Nas relações entre espanhóis e guaranis, o compadrio tinha seu papel, embora o acordo entre os povos não fosse idêntico ao existente entre índios. Os guaranis eram bastante flexíveis e consideravam benéfico incorporar referências culturais dos seus aliados. Os espanhóis conseguiram levar para essa relação a hierarquia social civil que condizia com o sistema político monárquico da Europa. Com suas adaptações, claro, mas basicamente conseguiram levar a autoridade do governador para a relação com os índios, estabelecendo a relação da encomienda. Ao mesmo tempo, foram considerados grandes guerreiros e, como tal, tinham o privilégio de receber várias mulheres. Isso era reservado apenas para a elite da elite local.
Mas como é que cristãos poderiam ter várias mulheres? Em Mulheres no Caminho do Prata, Jorge Caldeira observa que “na falta de qualquer alternativa canônica, os colonos recorreram à categoria de ‘criadas’ para definir as relações de gênero que mantinham. Num tempo em que o casamento não era um sacramento obrigatório para os católicos, ainda existia a relação, aprovada pelo costume, com concubinas: a Igreja casava com outras mulheres os nobres que tinham filhos com concubinas. Assim, a definição das mulheres como criadas permitiu vislumbrar uma relação semelhante, com o que os padres do grupo (alguns deles tendo ‘criadas’ em casa) puderam continuar seu pastoreio. Mesmo não recebendo a alta teologia, a adaptação da poligamia ao concubinato foi suficiente para que os padres considerassem todos como bons cristãos, dessem comunhão e batizassem filhos”.
Essa relação híbrida gerava benefícios para os dois lados: os guaranis ganhavam proteção – era muito difícil que alguém se metesse a besta com eles, tendo um aliado tão poderoso; por outro lado, os espanhóis também se protegiam – os índios serviam como guias naquelas matas desconhecidas e como garantia de que eles não seriam encurralados por tribos desconhecidas. Pode-se até pensar que as vantagens eram tão grandes que esse foi um dos motivos pelos quais Domingos Irala decidiu despovoar Buenos Aires. Muito mais valia estar em um local onde tivessem garantias o suficiente de sobrevivência, onde pudessem construir algo sólido, para depois explorarem o desconhecido, em busca das tão desejadas riquezas.
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