Os quatro sobreviventes da expedição de Pánfilo de Narváez - Cabeza de Vaca, Andrés Dorantes, Alonso del Castillo e o escravo Estebanico - só não comeram o pão que o diabo amassou em suas andanças pela Flórida e Novo México porque ali não havia trigo. Salvo uma ou outra temporada de fartura, tiveram de se contentar com o que havia em torno – raízes, aranhas, frutas muito amargas que só podiam ser tragadas junto com terra.
Por algum tempo, a base da dieta do quarteto foi o milho. Durante suas andanças pelo continente, Cabeza de Vaca e seus três companheiros encontraram populações que os encontraram o cultivo até conseguir retornar ao México, sete anos depois.
Pouco depois do primeiro contato entre Colombo e os índios o milho adquiriu um significado especial: os povos que praticavam seu cultivo costumavam ser perfeitos para auxiliar nas explorações e na ocupação sistemática do território; tinham organização social adequada e dominavam certa tecnologia que, associada ao conhecimento do território, se transformavam na arma perfeita para o início da exploração de Pánfilo de Narváez.
A maior parte do território por onde caminharam, no entanto, não era muito propícia para esse tipo de cultivo e muitas vezes caminhavam sete, oito léguas sem encontrar uma espiga. Quando podiam, levavam um pequeno estoque de milho que trocavam por peixe cozido e água.
Nos lugares mais áridos, onde o milho não era cultivado, a alimentação básica dos quatro sobreviventes foi uma espécie de pêra, ou de figo, muito doce e cheia de pequenas sementes, abundante em água e que os índios chamavam de tuna. A pele dessa fruta era traiçoeira: continha pequenos espinhos, praticamente imperceptíveis a olho nu, que esperavam pela primeira oportunidade de entrar na pele de um desavisado, causando certo incômodo. Esses espinhos, e outros maiores, estavam também presentes no caule e nas grossas folhas desse cacto, chamadas de nopal, que hoje sabemos ser do gênero Opuntia. Essas tunas tinham uma característica que dava margem a uma pegadinha com os desavisados e marinheiros de primeira viagem. Gonzalo de Oviedo fala sobre a piada que fizeram dele após darem a ele de comer essa fruta pela primeira vez: o deixaram por algum tempo desesperado com sua própria saúde antes de revelarem, entre risadas, que era normal que sua urina assumisse coloração vermelho-sangue após o consumo das frutas.
É até hoje um vegetal abundante em toda a região do sul dos Estados Unidos e do México – está até mesmo presente no escudo nacional desse país: a águia bifronte, que se alimenta de uma serpente, repousa sobre um nopal. O México se considera um país de mestiços, de modo que tal escudo retrata uma história de grande importância na constituição da base indígena dessa nação. Os mexicas, povo guerreiro, a certa altura de sua habitação da cidade de Aztlán se encontravam em extrema penúria: já rareava sua alimentação, as lutas contra os povos vizinhos não eram mais bem sucedidas, as doenças e a infertilidade começavam a atacar. Através de seus oráculos, o deus do sol e da guerra, Huitzilopochtli, disse aos sacerdotes que guiassem seu povo por uma caminhada que visava a encontrar um novo lugar para viver – caminhada quiçá longa e penosa, mas que era a única maneira de salvar a população. Errariam até encontrar um sinal enviado pelo deus, indicando o local mais próspero e que mais colaboraria para a felicidade futura dos mexicas. O sinal apareceu ao aproximarem-se de um grande lago, que chamaram texcoco, especificamente em uma ilha localizada no seu centro. Lá estava o que buscavam: uma águia em um grande campo de nopales, repousada sobre um deles enquanto devorava seu alimento diário: uma serpente. Ali encontrariam morada; desde aí formariam seu grande império asteca. O local – que hoje, sem lago, abriga o centro da cidade do México – foi chamado Tenochtitlán, que significa “terra onde abundam pedras e tunas” (tlán = abundância; tetl = pedra; nóchtli = tuna), ou México – “o umbigo da lua”, por conta do reflexo do satélite no lago de Texcoco.
O nopal lhes dava não só sua doce fruta, como também sua folha, de dupla utilidade: podia ser comida como verdura – tem um tenro sabor que lembra a textura de uma vagem ou um quiabo – ou usada como remédio – sua polpa é rica em aloe, ótimo cicatrizante.
Outro tipo de cacto também era crucial para os astecas – e até hoje faz parte da vida diária mexicana. O maguey, ou agave, tinha muitas utilidades: dele se podem fazer dois tipos de papel, agulha, linha, tintas e, o mais importante, bebidas que os colocavam mais próximos do contato com os deuses. A tequila e o mézcal são feitos através de dois tipos de destilação do cacto. O mézcal resulta em uma bebida agre e com altíssimo teor alcoólico; a tequila, mais leve, tem um sabor levemente adocicado ao qual na produção caseira se usa adicionar amêndoas ou outros tipos de frutos gordurosos, que lhe dêem um toque mais “macio”. O pulque é a mais leve das bebidas e a mais consumida pela população normal asteca, quando queria entrar em contato com as divindades – e hoje pela mexicana, quando quer embriagar-se. É um fermentado branco, leitoso de aspecto e textura. Seu sabor é doce, com um fundo amargo. Não pode ser transportado ou armazenado: é mister que se produza para consumo imediato.
A Figueira das Índias foi durante seis anos a alimentação básica daqueles náufragos espanhóis. Eles até mesmo paravam de caminhar durante o inverno, por causa da escassez da fruta e, com isso, do perigo de ficarem facilmente sem alimento em algum local distante de povoados indígenas. Tão americano quanto o milho, os tomates e as batatas, esse figo foi levado para a Europa, onde levou a fama (por sua doçura) de ser o figo banido do paraíso e por isso renegado à distância da civilização cristã no mundo terreno.
Na América do Sul, Cabeza de Vaca certamente consumiu muita mandioca, como substituto do trigo, difícil de cultivar (Sebastião Caboto enalteceu a fertilidade do solo da região do Prata, registrando as boas colheitas de trigo, mas foi uma exceção.
Durante seu retorno à Espanha, a bordo de um pequeno bergantim, a fome foi grande. Só tinham pequenas tortas de farinha (de mandioca certamente e provavelmente, um tipo de tapioca indígena) para comer.
Mas no tempo em que ele viveu suas aventuras, o cardápio nas viagens transoceânicas era sempre um problema. Uma viagem às Índias exigia um estoque de alimentos considerável. Basta lembrar que o Victoria, único barco a retornar da aventura de Fernão de Magalhães levava para seus 31 tripulantes, ao deixar Sanlúcar de Barrameda: 18.445 quilos de biscoitos, 82 pipas de vinho, uma de farinha[1], 447 quilos de toicinho defumado, 240 de ameixas secas, 170 de uvas passas,[2] 138 de figos secos, 120 de mel, 26 de arroz, nove de açúcar, 150 barris de anchovas, duas mil sardinhas brancas, 46 quilos de peixes miúdos secos, 600 unidades de pescado seco, 1.000 decímetros cúbicos de grão de bico, 470 de favas, 150 de amêndoas com casca, 23 de lentilhas, 144 queijos, 50 réstias de alho, quatro caixas de marmelada, 1.614 litros de azeite, 65 de vinagre, três jarras de mostarda e uma vaca em pé. Sem falar nas velas de cera, lanternas, caldeiras, pratos, ferramentas de cozinha, anzóis e a quinquilharia para os índios (espelhos, facas, tesouras, martelos, tenazes, fivelas, chocalhos, contas de vidro, agulhas, bolsas, cintas). Lenha e água potável o quanto coube. Ao fim e ao cabo, os bastimentos (nome dado ao conjunto de produtos e equipamentos embarcados) ocupavam de 13 a 15% da carga útil da Victoria.
A base da alimentação (600 quilos por tripulante) era o biscoito.[3] No formato de pequenas tortas, pouco fermentado, era cozido várias vezes, para eliminar toda a umidade e evitar sua alteração. Por isso, ficava quase tão duro quanto um pedaço de madeira, o que levava os comandantes a descartarem quem não tivesse uma dentadura capaz de triturá-los.
Como não era possível guardá-los em local seco e ventilado, em poucos dias, o produto era comprometido pela água salobra e por vermes de todo o tipo, gerando cenas como a que Frei Bartolomé de las Casas presenciou durante a quarta viagem de Colombo:
Tenían ya falta de viandas, por haber ya ocho meses que andaban por la
mar, y así consumido la carne y pescado que de España habían sacado, dello
comido y dello podrido por los calores y bochorno y también la humedad que
corrompe las cosas comestibles por estos mares. Pudrióseles tanto el bizcocho
y hinchióseles de tanta cantidad de gusanos, que habían personas que no querían comer o cenar la mazamorra [4]que del bizcocho y agua puesta en el fuego hacían, sino de noche, por no ver la multitud de gusanos que dél salían y con el se cocían. Otros estaban ya tan acostumbrados por la hambre a comerlos que ya no los, porque en quitarlos se les pasaría la cena, tantos eran. [5]
Considerado alimento, o vinho era a única bebida disponível, além da água. E o vinagre não era só tempero: além de condimentar e conservar os alimentos, era aplicado em feridas superficiais como remédio.
Muitos barcos tinham pequenos currais com porcos, galinhas, pavões, carneiros e vacas, na tentativa de manter alguma fonte de carne fresca, apesar das limitações de ração e de espaço.
[1] As pipas para água (o vinho podia ser levado nelas também) tinham capacidade para 443,8 litros.
[2] O texto fala em pasas de Sol y lejía. As passas de sol o de Flor se conservan mejor que las
Moscatel, y por esta razón es esta variedad la que se envía habitualmente a India. 3º, las pasas
Lejía, que se envasan en barriles, o en cestos de esparto llamados frails (seros). Estas pasas son de
una calidad inferior, y –las uvas de las que se hacen– requieren ser introducidas en una solución
(Lexia) de cenizas de leña con un poco de aceite antes de secarse.
[3] Ele substituía o pão fresco, que só seria assado a bordo em 350 anos mais tarde.
[4] Mazamorra era as sobras de biscoito, geralmente fermentadas e cheias de vermes, muitas vezes reaproveitada pelos biscoiteiros. A prática era tão usual que havia até uma lei proibindo-a.
[5] Fray Bartolomé de LAS CASAS, Historia de las Indias. Estudio y notas de J. Pérez de Tudela,
Madrid, 1961,libro III, p. 286
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