Durante suas viagens ao Novo Mundo, Cabeza de Vaca provou bebidas muito diferentes do vinho, companheiro dele e de todos os navegadores do século XVI. Na América do Norte, a novidade foi uma bebida amarelada, feita com folhas parecidas com as do carvalho, que, depois de tostadas, eram fervidas em água.
A beberagem, de preparação complicada, tinha de ser tomada escaldante, assim que se tornava espumosa. Os homens convocavam seus companheiros aos berros – o que levava suas companheiras a ficarem imóveis, ainda que carregassem trouxas de lenha nas costas. É que para os índios, se elas se mexessem, certamente iriam envenenar o drinque. As que desrespeitavam a determinação levavam pauladas nas costas e os índios jogavam fora a bebida e buscavam vomitar o que tivessem ingerido. Também para evitar que coisas malignas entrassem no líquido, o pote de fabricação era hermeticamente tampado. Resolvido os problemas, a turma bebia por três dias seguidos, num porre gigantesco durante o qual não comiam nada.
No relato de Pero Hernández, sobre a viagem de Álver Núñez pelo território brasileiro, há referências a um vinho de milho oferecido aos espanhóis como uma espécie de coquetel de boas vindas por diversas tribos. Possivelmente, era o cauim, uma bebida fermentada de mandioca ou de milho, mencionada por visitantes do Brasil nos séculos XVI e XVII, como o padre Anchieta e os franceses Claude d'Abbeville, Yves d'Evreux, André Thévet e Jean de Léry.
Esses fermentados estão relacionados diretamente com o desenvolvimento do principal recurso tecnológico de diversos povos da região - a cerâmica. Seu processo de fabricação podia ser menos complexo do que o da bebida que Cabeza de Vaca experimentou na Flórida, mas demandava igualmente, esforço coletivo e muitos cuidados. As bebidas fermentadas, registra João Azevedo Fernandes em Selvagens bebedeiras : álcool, embriaguez e contatos culturais no Brasil colonial, “ocupavam, e ocupam, um lugar central nos sistemas culturais indígenas (...) Estas bebedeiras tradicionais, nas quais os índios tornavam-se “furiosos e temíveis”, eram encaradas pelos primeiros missionários como um dos principais, senão o maior, obstáculo para a conversão daqueles pagãos.”
Em 1610, o jesuíta Jácome Monteiro, observou:
(...) tomando novos nomes, conforme aos contrários que matam, dos quais chegam alguns a ter cento e mais apelidos, e em os relatar são mui miudos, porque em todos os vinhos, que é a suma festa deste gentio, assi recontam o modo com que os tais nomes alcançaram, como se aquela fora a primeira vez que a tal façanha acontecera; e daqui vem não haver criança que não saiba os nomes que cada um alcançou, matando os inimigos, e isto é o que cantam e contam. Contudo os cavaleiros nunca fazem menção dos seus nomes, senão quando há festa de vinhos, na qual só se ouve a prática da guerra, como mataram, como entraram na cerca dos inimigos, como lhe quebraram as cabeças. Assim que os vinhos são os memoriais e crónicas de suas façanhas.
Claude d’Abbeville, um capuchinho francês, ressaltou que a bebida estava presente nos momentos decisivos:
Se esses índios são grandes dançarinos são ainda melhores bebedores; em verdade não costumam beber senão nos dias de reuniões festivas, como quando matam algum prisioneiro para comer, quando deliberam sobre a guerra, em suma quando se juntam por prazer ou para tratar de negócios importantes, os quais não seriam bem sucedidos se antes não preparassem o cauim e não cuidassem à vontade.
D´Abbeville comparou o cauim à cerveja de malte e constatou: “tomando-se muito, embriaga, efeito que no fim da festa se percebia de sobra pelos pulos desordenados e pelo canto delirante de li-lá-lá”
A relação entre tribos americanas e bebidas alcoólicas é antiga e variada. No Pará, os nativos raspam a casca da mandiocaba (espécie de mandioca doce) e comprimem a massa resultante, doce como o açúcar, em beijus que são envoltos em folhas e postos para assar no forno de barro. Em seguida, são colocados num jirau no meio da mata, novamente coberto por folhas e ali ficam até fermentarem. Quando começa a escorrer líquido dos beijus os nativos dizem que a “guariba está mijando.” É quando a massa fermentada vai para alguidares, sendo dissolvida em água e coada, sendo servida em festas religiosas e familiares. Uma antiga superstição relacionada com a guariba estabelece que seu fabricante, homem ou mulher, tem de tomar algumas precauções desde o momento em que começa a ralar a casca da mandioca doce até o final do processo: não pode comer molhos picantes, sal ou ter relações sexuais.
Na América Central, a produção de bebidas teve relação com o cultivo do cacau. Ao analisar vasos de 3.100 anos encontrados em Honduras, um grupo de cientistas americanos encontrou traços de cacau nas peças de cerâmica. Os nativos locais faziam uma espécie de cauim (ou chica em outras regiões latino-americanas), utilizando a polpa fermentada da fruta. Foi preparando a chica que os aborígenes hondurenhos descobriram a matéria-prima do chocolate, que vem da semente torrada e moída do cacau.
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